Ruth de Souza: um tesouro nacional

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Ruth de Souza: um tesouro nacional

Nasceu mulher, negra, pobre e queria ser atriz. Ruth de Souza foi um ser humano que não se contentou em cumprir os papéis sociais do século XX e derrubou as barreiras do preconceito. Foi uma atriz de lutas e vitórias. Uma mulher que desafiou os padrões estabelecidos e se firmou com uma das melhores atrizes brasileiras

Ruth de Souza em sua casa. 2018. Foto: Ygor Kassab

YGOR KASSAB (13-01-2020)

@YgorKassab

Ruth Pinto de Souza nasceu em 12 de maio de 1921, no Engenho de Dentro, mas ainda pequena se mudou para um sítio no interior de Minas Gerais. Foi lá que seus pais, Alaíde Pinto de Souza e Sebastião Joaquim de Souza, criaram com poucos recursos seus três filhos: Antônio, Maria e a sempre inquieta Ruth.

Teve uma infância solitária, sem contato com muitas pessoas, mas isso teve uma grande contribuição para formar seu imaginário sobre um mundo que não conhecia, um mundo cheio de encantos e aventuras. “Eu era muito sozinha, mas vivia inventando coisas, por isso que acho que isso me fez atriz. Eu andava descalça, só botava sapato quando ia a festa. Vivia brincando sozinha no meio do mato”, recordou Ruth.

Muito menina perdeu o pai e de longe viu várias canoas levando o corpo daquele que estaria para sempre em sua memória. Ela ainda não compreendia bem essa perda, mas nunca esqueceu esse dia. A partir disso, voltou com a mãe e os dois irmãos para o bairro de seus sonhos: a Copacabana que cheirava a jasmim.

Recém-chegada a então capital do Brasil, ela assistiu ao filme que marcaria sua vida para sempre: “Tarzan, o filho das Selvas”, do diretor estadunidense W. S. Van Dyke. Nesse momento, sentiu uma paixão tão forte pela sétima arte que decidiu que queria ser atriz. “Eu via muitos filmes musicais, me lembro do filme ‘Voando para o Rio’, fiquei encantada, aquelas atrizes elegantes, bonitas”, comentou.

Porém, a menina sonhadora ainda teria de lidar com os diversos preconceitos contra a cor de sua pele. Quando comentava que queria ser atriz as pessoas não davam crédito, diziam que era impossível. Segundo ela: “Diziam que eu não podia ser atriz porque era negra e aqueles filmes eram todos com as loirinhas. As hollywoodianas eram todas loiras, mas eu não liguei muito. Falei: eu vou ser atriz! Não sei como, mas vou”.

Logo, a menina tornou-se mulher e leu nas páginas da Revista Rio, pertencente a Roberto Marinho, dono dos jornais O Globo, uma matéria que mostrava um grupo de artistas negros fazendo teatro. Nesse momento seu rosto se iluminou, era a oportunidade que sempre quis e depois de uma primeira entrevista foi aceita na companhia.

Esse grupo era o Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado pelo ativista dos direitos humanos Abdias do Nascimento. Foi nesse local, que Ruth trabalhou durante cinco anos aprendendo tudo sobre o fazer artístico. Tinha aula de dicção, canto, dança, expressão corporal e aprendia afazeres teatrais que incluíam bilheteria e cenografia.

Depois de alguns meses de preparação aconteceu o dia de sua estreia nos palcos brasileiros, isso em 8 de maio de 1945. A peça era “O Imperador Jones”, do dramaturgo estadunidense Eugene O´Neill e o teatro não poderia ter sido mais marcante. Estreava no palco mais prestigiado da época: o do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Foi dela a ideia de que o grupo escrevesse para o dramaturgo pedindo os direitos para montarem essa peça inicial assim como outras também. Dessa forma, peças como “Todos os Filhos de Deus tem Asas” e “O Moleque Sonhador” foram ensaiadas e representadas pela primeira vez no Brasil. Lúcio Cardoso, escritor mineiro escreveu O Filho Pródigo (1947) e a interpretação da jovem Ruth de Souza ficou entre as melhores performances de daquele ano.

A notória revista A Scena Muda assim descreveu esse momento de efervescência para o TEN: “Ruth de Souza, uma das mais fortes vocações que a raça negra já forneceu ao Brasil, após suas brilhantes atuações em ‘O Imperador Jones’, ‘Todos os filhos de Deus tem asas’ e ‘O moleque sonhador’, todas do grande dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill, e em ‘O filho pródigo’, de Lúcio Cardoso, cujo desempenho lhe valeu a 2ª colocação na escolha da Associação dos Críticos Teatrais para a revelação de 1947, acaba de ingressar no cinema.”.

O cinema, grande paixão desde a infância, estava muito perto de entrar, definitivamente, em sua vida. Foi o escritor Jorge Amado que a indicou para seu primeiro trabalho cinematográfico: “Terra Violenta”. Esse filme de 1948 foi baseado no livro do próprio autor escrito quando ele estava no exílio na Argentina e tinha o nome de “Terras do Sem Fim”.

A partir disso, muitos outros filmes marcariam o currículo da atriz, principalmente, quando ingressou na Vera Cruz, uma das companhias cinematográficas mais importantes para a história do cinema brasileiro. Segundo Ruth, foi assim o seu começo na companhia: “O primeiro filme foi Terra é sempre Terra, depois Candinho, depois Ângela. Aí fui estudar um ano e meio nos EUA e Tom Payne me mandou um telegrama perguntando quando eu vinha que tinha um papel para mim”.

Tom Payne, diretor argentino de cinema, radicado no Brasil, foi responsável pela realização de diversas produções nacionais. O filme em questão que foi o motivo do telegrama era “Sinhá Moça (1953) ”, filme que seria para sempre o cartão de visitas da atriz. Nele, ela viveu uma escrava que ao longo do filme vive momentos de grande tensão, como um estupro e também a morte do marido.

O filme foi um sucesso, participando do prestigiado Festival de Veneza. Porém, Ruth não tinha ideia de que estava concorrendo ao prêmio de melhor atriz coadjuvante. “Foi esse filme que me abriu caminho. Sinhá Moça foi para Veneza. Haroldo Costa conta que todos aplaudiram muito a minha cena. Meu papel era coadjuvante. Eu soube por uma amiga que eu estava concorrendo”, relembrou.

Ela não levou o prêmio, mas sua carreira começou a deslanchar. No fim da década de 1950 entrou para a companhia de teatro dos atores Sérgio Cardoso e Nydia Licia e protagonizou peças de peso como “Oração para uma Negra (1959) ”, do escritor estadunidense William Faulkner e “Quarto de Despejo (1961) ”, adaptação da jornalista Edy Lima da obra da também escritora Carolina Maria de Jesus.

Dar vida a Carolina Maria de Jesus, escritora da favela, foi um grande momento na carreira de Ruth de Souza. Foram feitos diversos laboratórios na rua, em que Ruth literalmente catava papel do chão como fez tantas vezes a personagem que lhe motivava a interpretação.

Com o advento das novelas e a popularização desse gênero no cotidiano familiar de milhares de brasileiros, a atriz foi desenvolvendo uma intensa participação em diferentes tramas da televisão. Seu primeiro trabalho foi em “A Deusa Vencida (1965) ”, da extinta Rede Excelsior. Depois ela migrou para a Rede Globo e foi nessa emissora que ganhou uma grande chance: ser a primeira protagonista negra da telinha.

“A Cabana do Pai Tomás (1969) ”, trouxe Ruth como mulher do personagem principal da novela e isso foi uma vitória na conquista por igualdade de papéis para pessoas negras. Ela sempre lidou com o preconceito racial e quando era ainda uma menina sonhadora muitos diziam que queria colocar o chapéu onde não alcançava.

“Falei: eu vou ser atriz, não sei como, mas vou. Isso que acho que todo mundo deve fazer. Você quer fazer uma coisa, podem dizer que você não pode, mas se você quiser você vai fazer”, relembrou. O desânimo alheio não foi o bastante para desfazer o seu sonho. Persistiu em dar o seu melhor e alcançar melhores papéis.

A alegria de viver foi uma marca registrada dela na constante vontade de ir além, muito além do que dizem os preconceitos disseminados pela sociedade. Ela é lembrada sempre como um exemplo de garra, força e determinação. O brilho de seus olhos e seu jeito alegre a fizeram conquistar muitas amizades.

Mesmo com muitas vitórias na carreira houve, ao longo dos anos, a insistência em manter estereótipos. Muitas vezes, ela recebeu o convite para tornar a fazer empregadas domésticas e isso evidenciava os arquétipos na cabeça de tantos autores que não escreviam personagens com diferentes estilos de vida para o público negro.

Dois grandes dramaturgos brasileiros, Janete Clair e Dias Gomes, começaram a criar novos tipos de personagens. Foram as primeiras vezes que a família negra brasileira pôde ser representada sem preconceitos e mostrada como qualquer família brasileira. Em 1984, na novela Corpo a Corpo, existiu um núcleo de uma família negra que começava a propiciar ao espectador um novo modo de ver essas pessoas.

Não eram personagens soltos, como muitas vezes se viu em outras novelas. Pessoas que não tinham família e não ganhavam destaque no transcorrer da trama. Em Mandala (1987), novamente existiu esse tipo de núcleo familiar com diferentes tipos de profissões e Ruth de Souza teve a oportunidade de fazer a matriarca dessa família.

Em 1988, ela é agraciada pelo então presidente da República, José Sarney, com a comenda do Rio Branco, uma das mais importantes ordens fornecidas pelo Governo do Brasil. Continuava a marcar presença nos cenários artísticos da época e imprimia sempre em todos os lugares o seu senso aguçado de elegância.

Foram 74 anos ininterruptos de carreira e hoje ela é lembrada como um tesouro nacional. Marcou presença em diversas novelas, filmes, peças de teatro e séries de televisão. Em 2019 recebeu uma grande homenagem: foi enredo da escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz e ainda pode ser vista em uma participação especial na minissérie “Se eu fechar os olhos agora”, da Rede Globo.

“Minha mãe falava que não me queria com complexo. Falava que eu poderia ser quem quisesse com postura, educação e comportamento. Todo mundo diz que eu abri caminho, eu apenas lutei por algo que queria”, disse ela. Sua força e sua conduta transformaram sua vida.

Ruth, aos 98 anos, partiu em uma manhã de domingo de julho de 2019. Seu coração parou de bater. Porém, partiu vitoriosa. Ela enfrentou tantos preconceitos para ser quem queria, mas acreditou em um impulso do seu coração e venceu. Hoje, faz parte da história artística do país e estará para sempre na memória nacional.

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