Nair de Teffé: a primeira caricaturista mulher do Brasil

Grandes mulheres do Brasil: Nair de Teffé (1/4). Artigo que fala sobre a trajetória de vida da primeira mulher caricaturista do Brasil.

GRANDES MULHERES (1/4)

Por Sheila Baum

Final do século XIX, cidade do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época (1763 a 1960), períodos de grandes acontecimentos, como a abolição da escravidão, em 1888, na qual a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, e a Proclamação da República, em 1889. Entre outros feitos bons e ruins. Tempos esses, que a mulher tinha pouca representação na sociedade brasileira. 

A educação das mulheres restringia-se a atividades que fossem úteis ao ambiente doméstico, totalmente desvalorizadas no mercado de trabalho. Além disso, na grande maioria, elas eram subordinadas ao pai ou marido, ou a ambos. Tinham que ser esposas perfeitas e mães excepcionais. Um exemplo na sociedade. E, quem fugisse dessas regras sociais, culturais e políticas, era vista como uma pessoa que possuía comportamento “desviante”.

A figura feminina sempre foi vista e tratada com inferioridade e incapacidade pelos homens – que vão muito além de dois séculos, já que o machismo cresceu junto com a “evolução” do País, e se faz presente até hoje. Comportamento seguido à risca esse, que não se fazia valer para todas as mulheres. E uma delas foi a brasileira Nair de Teffé Von Hoonholtz, primeira caricaturista mulher do Brasil.

“Nair não foi a primeira caricaturista brasileira. Com outras mulheres cariocas, como a jornalista Eugenia Moreira (1898-1948) e a “diva dos salões” Laurinha Santos Lobo (1878-1946), ela agitou a sociedade ao flertar com o modernismo e as pretensões feministas da época. Mas sabia ela que suas ideias acabariam tendo eco junto à autoridade máxima do país e mudariam por completo o seu futuro”, diz Antônio Edmilson Martins Rodrigues, historiador, professor e autor do livro “Nair de Teffé: Vidas Cruzadas”, em um artigo para a Revista de História. 

Nair de Teffé, era uma mulher muito além do seu tempo. Não se encaixava nos padrões impostos pela sociedade, sendo considerada muito ousada para a época. Achavam ela “moderninha” demais. 

Filha do Barão de Téffé, além de ter sido a primeira cartunista mulher do Brasil, Nair também introduziu no País a moda de calça comprida para mulheres. Acervo Estadão. A Careta/Reprodução

SENHORITA GENTIL

Outono, estação do ano na qual a temperatura é mais amena, o ar é mais fraco, e que as folhas delicadamente caem das árvores, e as flores dão adeus as suas pétalas, mais precisamente, 10 de junho de 1886, no Rio de Janeiro, nasceu Nair.

A carioca sempre foi conhecida por sua gentileza, inteligência, por seus dons artísticos e seu bom humor, sendo até retratada como: “Gentil senhorita Nair de Teffé”, pelo o jornal do Rio de Janeiro O Século (1913. n. 2245. p.). Além de fazer caricaturas, Nair pintava, desenhava, cantava, tocava instrumentos musicais, entendia muito sobre teatro e falava seis idiomas.

Conhecimento vasto, que ela adquiriu entre os anos 1887 a 1903, quando a sua família se mudou do Brasil para a Europa, onde morou em Paris e Nice, e teve passagens rápidas pela Bélgica e Itália. Retornando ao País, definitivamente, quando tinha 17 anos.

Cabelos ondulados e muito bem armados, olhos na cor azul e providos de serenidade, sempre muito vaidosa –como indicam as fotografias de Teffé no espaço de busca virtual, na Internet –, era a filha mais nova e única mulher, entre quatro irmãos, do almirante barão de Teffé, Antônio Luís von Hoonholtz (1837- 1931), oficial da Marinha, hidrógrafo, astrônomo, explorador e diplomata, e da baronesa, Maria Luisa Dodsworth (1869 – 1934).

Dos 17 até os 25 anos, morando em Petrópolis, ainda solteira, Nair passou se dedicando no que mais gostava, fazendo caricaturas. A artista sempre teve como vontade própria empenhar-se a carreira artística, o casamento não era uma prioridade. Até que, durante um passeio a cavalo, em janeiro de 1913, conheceu quem viria a ser o seu marido, em dezembro daquele mesmo ano, o presidente da República, Hermes Rodrigues da Fonseca (1910-1914), sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil (1889-1891).

“Sofri uma queda do cavalo e o marechal veio me socorrer, dizendo ‘Há muito eu esperava por esta oportunidade. Quero que se case comigo’. Respondi que não podia aceitar de imediato e pedi seis meses para pensar.” (Jornal da Tarde, 11/06/1981).

De personalidade bastante ousada para a época, sendo chamada até de “loucaça” por alguns, justamente por ser uma mulher que ia contra as regras impostas pela sociedade, fez grande história no que se refere a tomada de consciência para mais autonomia das mulheres, no ambiente econômico, político, social e cultural. Nair chamava muito atenção do público, da imprensa e, principalmente, dos políticos, por ter sido a primeira dama mais jovem, de personalidade singular e mais polêmica da história do Brasil. Casar-se com o presidente em pleno mandato, foi algo que causou alvoroço, mas que, em pouco tempo, viria a ser o menor dos “problemas” para os brasileiros conservadores.

Com o passar do meses, com o posto de primeira-dama, deu início em várias quebras de costumes rígidos da época. Começou pelo Palácio do Catete, antigo Palácio Presidencial e agora Museu da República construído entre 1854 a 1867, tratando o lugar como se fosse a casa de ambos e “abrindo” os salões do Palácio para os brasileiros. De forma que houve um rompimento da formalidade e de distanciamento entre a presidência e a população.

Misturando a arte e a política, de maneira a impactar os modos conservadores e patriarcais, Nair provocava surpresas e espantos entre todos.

Certo dia, Nair apareceu em uma reunião ministerial usando um vestido em que em sua saia havia caricaturas de todos os ministros da República. Também realizou saraus e recitais, que, a princípio, eram com musicas clássicas. Mas que, aos poucos, quem acabou ganhando espaço foi a música popular brasileira. 

No livro: “Nair de Teffé: uma narrativa biográfica para as mulheres dos séculos XIX e XX”, a artista conta que foi seu próprio pianista, Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), quem recomendou que ela fizesse um sarau diferente: “Catulo Cearense! Um dia chegou perto de mim e disse: ‘Olha, eu vou lhe dar um conselho, porque eu sou mais velho. Você faz essas festinhas, essas coisinhas aí no Palácio, mas canta em francês, em alemão, em inglês e sei lá o que, e não cantam… não falam uma coisa só na nossa língua!’ E eu disse: E o que eu tenho que fazer? ‘Tenha um repertorio mais brasileiro, mais regional.’ Eu fiquei matutando e disse a ele: Então eu vou fazer um programa de coisas brasileiras (…)”.

Foi quando, em 1914, entre amigos do casal, foi realizado um recital de modinhas, no Palácio, tocadas com violão – instrumento que, naquele tempo, era relacionado a boemia a aos maus costumes –. Esse ato foi considerado como um insulto a Nação.  

Mais para frente, quase no fim do mandato de Hermes da Fonseca, na noite de 26 de outubro de 1914, visando uma despedida do presidente, Nair, na presença de amigos e autoridades, acompanhada por Catulo da Paixão Cearense, tocou e cantou, ao violão, o maxixe: Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. Momento da história do Brasil conhecido como: “a noite do Corta-Jaca”. Escândalo nacional. Pois, o que imperava na alta classe era a música erudita, jamais se esperava ouvir maxixe nos jardins do Palácio presidencial, ritmo considerado cafona, vulgar e imoral pelos conservadores. Era algo proibido.

De acordo com o site Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras: “A palavra “maxixe”, cuja primeira aparição impressa data de 1880, refere-se originalmente a uma dança urbana de par enlaçado surgida no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Criado pelos habitantes da Cidade Nova, bairro popular carioca, o maxixe é inicialmente dançado em bailes denominados “sambas” ou “assustados”, caracterizando-se pelos requebros sensuais dos pares que balançam os quadris. No princípio, restrito às camadas mais pobres da sociedade carioca, penetra os ambientes burgueses já na década de 1870, por meio dos clubes carnavalescos”.

“A música brasileira. A música popular. A música popular é no violão, não é no piano, é no violão”, respondeu Nair, os 93 anos, em uma entrevista realizada na sua casa, em 1979, por Liane Uchôa (1968-2017), na época com apenas 12 anos. “O que a senhora fez, foi muito bom, pois ajudou a música brasileira”, disse a pequena entrevistadora e apaixonada por poesia, e pela história de Nair.

Nair de Teffé, 26 anos, no palacete 'Villino Nair'. Acervo Estadão. A Careta/Reprodução
O casamento aconteceu no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, Rio de Janeiro. Acervo Estadão. A Illustração Brazileira/Reprodução

“RIAN” OU NADA

Desenho de humor: CARICATURA. “Tipo de desenho que, definido pelos excessos, pelas formas e pelos traços deformados, apresenta uma pessoa ou situação de uma forma grotesca, cômica”, de acordo com o site Dicio.

“A palavra Caricatura surgiu no século XVII com o pintor Agostino Carracci da Bolonha, o qual criou uma galeria com caricaturas dos tipos populares da sua cidade. Outros artistas da Escola de Bologna também se destacaram nessa forma de arte, como Domenichino e Guercino. Pier Leone Ghezzi (1674-1755) foi um dos primeiros a dedicar-se quase que integralmente à realização de caricaturas”, indica o site Brasil Escola.  Tipo de desenho que encantava a artista.

Nair, ou melhor, Rian, forma de escrita na qual a artista se identificava em suas criações. Rian (Nair ao contrário), forma na qual se pronuncia, se fala a palavra escrita “rien”, que significa “nada” em francês.

Seus desenhos tiveram publicações nos periódicos, como: Fon-Fon (revista na qual ela divulgou sua a primeira caricatura, a artista francesa Réjane, em 1909), O Binóculo, A Careta, O Malho, Gazeta de Notícias, Gazeta de Petrópolis, Le Rire Femina. Considerada por muitos críticos como dona de traços virtuosos e bastante transitórios, pois seus dedos, movimentados por suas articulações e a criatividade da mente, dançavam uma valsa, hora para bem outra para o mal, quando se tratada retratar a personalidade do caricaturado. Mas, produções que, com o passar do tempo, foram ficando de lado.

Nair teve muitas perdas e em pouco tempo. Após a morte do seu marido, Hermes, em 1923, depois de oito anos, foi o pai, e logo em seguida, um ano depois, a mãe. Nair se desmantelou. As consecutivas perdas contribuíram para que ela acabasse se afastando por, aproximadamente, 20 anos. Os lápis e os papéis ficariam guardados, na espera de sua maestra, Rian.

É nesse momento que a caricaturista se volta para o seu eu. Para o seu coração. Para a sua família. Nair adota quatro crianças. Além disso, dedicou-se na construção do seu própria cinema.

 Em 28 de novembro de 1942, na Avenida Atlântica, 2964, em Copacabana, Nair inaugurou o Cinema Rian. Espaço que mais tarde, em 1946, foi vendido para Luiz Severiano Ribeiro (1886-1974). Porém, em 16 de dezembro de 1983, ele foi demolido, e no local foi construído um hotel, o conhecido Pestana Hotel.

Na década de 50, teve um retorno. Participou a convite do pesquisador Herman Lima do livro História da Caricatura, na qual ele estava organizando. Aqui voltava a pioneira das caricaturas. Passou a desenhar artistas da televisão e do rádio, tais como: Hebe Camargo, Wanderlea, Agnaldo Rayol, Moacir Franco, Iona Magalhaes com Carlos Alberto, Bibi Ferreira e Grande Otelo.

Nair de Teffé morreu um dia após completar seus 95 anos, no dia 11 de junho de 1981. Viveu muitos anos dedicando-se a arte e na política, acreditando na força e na independência da mulher. Ela não só ganhou espaço em um espaço considerado masculino, como ficou reconhecida mundialmente pelo seu talento. Uma combinação de força, inquietude e bom humor. Ela, sem dúvidas, deixou a sua trajetória registrada na história. 

Algumas caricaturas de Rian

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