Mulheres e o mundo da arte

Mulheres e o mundo da arte

“Menos de 4% dos artistas nas seções de arte moderna são mulheres, mas 76% dos nus são femininos”, diz levantamento

Sheila Baum

2 FEV 2020

A arte, de acordo com o dicionário inglês Oxford, seria uma espécie de aplicação da habilidade e imaginação humana, normalmente em forma visual, como pintura e escultura, em que a contemplação das obras ocorre por sua beleza e pelo o seu poder emocional.

Porém, para o escritor russo Liev Tolstói (1828- 1910), a arte tem outro sentido. “A arte não é, como os metafísicos dizem, a manifestação de alguma ideia misteriosa da beleza ou de Deus; ela não é, como os fisiologistas sem senso estético dizem, um jogo no qual o homem descarrega seu excesso de energia acumulada; ela não é a expressão das emoções humanas em símbolos exteriores; ela não é a produção de objetos prazerosos; e, sobretudo, ela não é prazer; ela é um meio de unir os homens através dos sentimentos em comum, indispensável para a vida e progresso através do bem-estar dos indivíduos e da humanidade.”

Essa força que a arte possui, seja ao encantar as pessoas pela sua beleza – se formos para a definição do dicionário, e seguirmos para o pensamento de como a maioria das pessoas enxerga a arte; por conseguir que adultos e crianças desconhecidas se sintam interligadas pelos sentimentos que a obra passa. Envolvimento esse, que vem passando de gerações para gerações. 

Contudo, a arte, assim como outros campos na área do trabalho, não é igualitária quanto se pensa, quando falamos no papel feminino. Dos que criam. As mulheres pouco são reconhecidas como criadoras de obras. Não tem o mesmo prestígio que os homens. O único momento em que as mulheres são aceitas na arte, é quando são usadas como objetos de criação. Só há um lugar que lhes cabem, à frente do olhar de quem pratica à ação, como passiva – como inspiração? –, e não como quem tem aptidão para fazer com que sua arte desperte os mais diversos sentimentos dos homens, como indica Liev Tolstói.

Além do mais, as mulheres sempre foram vistas, através do olhar de muitos, como “simples cumpridoras de obrigações”. “Serviçais” dos homens. “É preciso agradar os homens, ser fiel, útil, fazer de tudo para que seja amada, criá-los quando pequenos e quando adultos, dar conselhos e consolo. É preciso manter a casa em ordem e as roupas limpas, colocar comida na mesa e estar com sorriso no rosto, quase sempre, e jamais atrapalhar as funções designadas somente aos másculos ou suas rodas de conversa – o famoso ‘clube do bolinha’.”

É evidente que esse tipo de comportamento não se aplica “tanto” nos dias de hoje. As mulheres estão mais independentes e lutando, cada dia mais, para serem reconhecidas não só no mundo da arte, mas em todos os campos do conhecimento. Porém, essa conquista vivida hoje, mesmo que dificultosa, vem do século XVIII, na Europa, em que salões alternativos à corte surgiram, promovidos por mulheres cultas. Essas mulheres não queriam mais se sentirem “amarradas” pelas regras da sociedade, que as restringiam acesso à educação. Eram excluídas da Escola de Belas Artes, e desenhar modelos nus era estritamente proibido a elas. Mudanças ocorreram.

No entanto, mesmo com o movimento – que foi um grande passo à criatividade feminina –, quantas mulheres pintoras conhece? Fotógrafas, escritoras e escultoras? E agora, quantas mulheres nuas já viu em quadros, fotografias e esculturas? – Muito mais, acredito eu! A arte, ainda, é um mundo masculino, infelizmente.

Essa ausência das mulheres na história da arte é discrepante. Por exemplo, no impressionismo, movimento que surgiu em abril de 1874 em Paris, após um grupo de jovens artistas, cansados de terem suas obras excluídas dos salões oficiais, reunir-se para montar a própria exposição, somente duas mulheres são lembradas: Berth Morisot (1841-1895) e Mary Cassatt (1844-1926). Por outro lado, os homens eram aos montes: Claude Monet (1840-1926), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Edgar Degas (1834-1917), Edouard Manet (1823-83), e muitos outros.

Existem mulheres na história da arte, sim, mas não com a mesma visibilidade que os homens. A arte também é feminina, mas o prestígio maior é dos homens. Quem nunca ouviu falar de: Michelangelo (1475-1564), Caravaggio (1571-1610), Vincent van Gogh (1853-90), Pablo Picasso (1881-1973)?

E essas mulheres, conhece alguma delas?

  • Caterina van Hemessen (1528 - 1587), pintora
  • Sofonisba Anguissola (1531 - 1625), pintora
  • Lavínia Fontana (1522 - 1614), pintora
  • Artemisia Gentileschi (1593 - 1653), pintora
  • Clara Peeters (1594 - 1657), pintora
  • Judith Leyster (1609 - 1660), pintora
  • Maria Sibylla Merian (1647 - 1717), pintora
  • Elisabeth-Louise Vigée Lebrun (1775 - 1842), pintora
  • Rosalba Carriera (1675 - 1757), pintora
  • Maria Verelst (1680 - 1744), pintora
  • Angelica Kauffman (1741 - 1807), pintora e escultora
  • Rosa Bonheur (1822 - 1899), pintora
  • Rosa Bonheur (1822 - 1899), pintora
  • Camille Claudel (1864 -1943), escultora
  • Harriet Hosmer (1830 - 1908), escultora
  • Adelaide Johnson (1859-1941), escultora

Há muitas outras. Porém, não se engane, “elas não chegam aos pés do legado masculino”.

Exposição do portfólio das Guerrilla Girls, no MASP – Museu de Arte de São Paulo, em 2017.

Ativistas feministas, mais de 55 pessoas, as Guerrilla Girls surgiram há mais de 30 anos, mais precisamente, em 1985. Sempre anônimas, usando uma máscara de gorila em público, expõem preconceitos étnicos e de gênero, corrupção na política, arte, cinema e cultura pop, sempre precavidas de fatos, humor e visuais.

“Menos de 4% dos artistas nas seções de arte moderna são
mulheres, mas 76% dos nus são femininos”, de acordo com as estatísticas do Metropolitan Museum of Art, 2011, apresentada no poster das Guerrilla Girls, em 2017, no MASP. 

“Acreditamos em um feminismo interseccional que combate a discriminação e apoia os direitos humanos para todas as pessoas e todos os sexos. ” (Guerrilla Girls)

“A Página em Branco”

O conto, publicado em 1957 pela primeira vez, “A página em branco”, (“The black page”), da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885-1962), que assinava com o nome de Isak Dinesen – nome masculino, traz uma reflexão sobre as possibilidades e os limites da criatividade feminina e as outras formas de criação.

Toda a história se passa num convento, em Portugal. Na qual, freiras se dedicavam em fazer belos linhos. Todo o material produzido era usado nos lençóis de recém casados, nas casas reais. Era uma folha em branco à espera de sua arte. As princesas deixam ali, a mancha de sangue, uma confirmação de virgindade – mostrava a sua pureza. Esse mesmo tecido, agora não mais branco, voltava ao convento, e dele era feito um quadro, e colocado em um corredor. Era uma galeria. No entanto, entre os inúmeros quadros vermelhos, com diferentes “pinturas”, havia um que era diferente. Ele era único. Ele era o que mais chamava atenção dos que visitavam a galeria. Um quadro em branco. A página em branco, entre as obras de arte possíveis do corpo das suas criadoras.

“O modelo da pena/pénis que escreve sobre a folha virgem participa numa longa tradição que identifica o autor como masculino, que é primário, e o feminino como sendo a sua criação passiva”, traz a escritora e professora Susan Gubar (75), em “A Página em Branco” e questões acerca da criatividade. A escritora usa o conto de Blixen para formular questionamentos através da criatividade feminina quanto a “página em branco”, o que seria o vazio.

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E as mulheres artistas brasileiras?

Atualmente, no Brasil, há 3812 museus, de acordo com o Museusbr. Mesmo com tantos espaços para se apreciar arte – de todos os tipos, o povo brasileiro se mostra menos interessado. É o que indica o levantamento, divulgado em 2017, da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), em parceria com o Instituto Ipsos. A amostra de 1.200 pessoas, em oito capitais (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis, Salvador, Recife, Porto Alegre e Brasília) e em mais 64 cidades do país revelou que brasileiros têm hábito de frequentar – em ordem cronológica: em primeiro lugar, shows musicais; depois, teatro; em seguida, espetáculos de dança; exposições de arte, e em última colocação, disseram frequentar museus.

Muitos conhecem a grande artista Tarsila do Amaral (1886-1973), bastante popular nacionalmente e internacionalmente. Uma de suas obras mais conhecidas é a Abaporu, que foi pintada em 1928, uma das principais obras do período antropofágico do movimento modernista no Brasil. Uma artista de grande referência a todos.

Mas, justamente pelo não acesso à museus – falta de interesse, questão financeira, falta de incentivo? –, outras artistas acabam ficando no anonimato. A grande massa não as conhecem, ou pelo menos, não falam delas com tanta frequência. 

Há inúmeras artistas femininas no Brasil. Mulheres talentosas, que, mais uma vez, nem sempre são tão reconhecidas pelas suas criações. Algumas delas: Beatriz Milhazes, Rosangela Rennó, Adriana Varejão.

Beatriz Milhazes nasceu no Rio de Janeiro em 1960. É pintora, gravadora e ilustradora. Sua obra é conhecida pelo uso de ornamentação, compondo-se, quase sempre, por arabescos e movimentos.

Obra: Te Quiero (1992)

Te Quiero (1992) Acrílico sobre tela. Foto: autoria desconhecida. Arquivo do Itaú Cultural.

Rosangela Rennó, mineira de Belo Horizonte, (1962), trabalha mesclando fotografias, objetos, vídeos e instalações.

Mulheres Iluminadas (1988)

Mulheres Iluminadas (1988). Fotografia em papel de brometo de prata. Foto: autoria desconhecida. /Cortesia Galeria Camargo Vilaça Arquivo do Itaú Cultural.

Adriana Varejão, carioca, nasceu no ano de início da ditadura no Brasil, em 1964. A arte barroca é referência do seu trabalho. Mais precisamente, a arte barroca cubana e a filosofia chinesa.

Natividade (1987)

Natividade (1987). Óleo sobre tela. Foto: autoria desconhecida. Arquivo do Itaú Cultural.

As mulheres são minorias do mundo da arte, desde sempre, isso é um fato concreto. Porém, o super avanço da produção artística feminina tem sido símbolo de luta. As mulheres estão cada vez mais desvencilhadas de qualquer “corda” que as impeça de progredirem, cada minuto que passa, em busca de uma aproximação de igualdade de direitos e oportunidades.

“Uma força ignorada, desconhecida, atrasada em seu voo, assim é a mulher artista; uma espécie de preconceito social ainda pesa sobre ela…” Helène Bestaux (1825-1909). (União das Mulheres Pintoras e Escultoras, 1881.

E-mail: contatojornalconatus@gmail.com

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