Marias de dia, Marias de noite

Marias de dia, Marias de noite

De acordo com levantamento da ONU, 28% da população mundial considera justificado que um homem bata na sua esposa

Por volta de 90% da população mundial tem algum tipo de preconceito contra as mulheres, sem distinção de sexo, revelou estudo da ONU. Arte: @vascolostudio

SHEILA BAUM

9 MAR 2020

Mais um dia que começa. São 6h da manhã, e o sol já vem surgindo, iluminando a minha sala de estar. O meu marido está para acordar. As crianças também. Enquanto isso, corro para fazer o café da manhã. Pronto! A mesa está posta, já posso me arrumar.

Eu trabalho como vendedora numa loja, entro às 10h, mas antes eu vou à academia, que fica perto de casa. Para fazer os exercícios de maneira mais confortável, eu uso calças mais elásticas, aquelas que grudam no corpo, sabe? Mas, como sou assediada nas ruas, pelo o que estou vestindo, eu acabo usando uma roupa qualquer só para ir, e depois, quando chego na academia, eu visto minha roupa ideal.

No meu trabalho, todos gostam de mim, sempre dizem: ‘Maria, você nasceu para fazer isso. As clientes te adoram! ’. Eu gosto do que faço, mas não é a profissão que sempre sonhei. Eu queria mesmo era ser bombeira, mas minha família dizia que era coisa de homem. Então eu desisti.

Até tentei fazer uma faculdade, há alguns anos. Estava nos primeiros meses do curso de administração, mas eu tranquei após denunciar um professor por assédio, e ninguém da instituição ter feito nada.

Quando termino os meus exercícios, depois de tomar banho e me trocar por lá mesmo, vou direto para o meu trabalho, que fica uma hora de ônibus da minha casa. Como vou dormir muito tarde e acordo muito cedo, tenho muito sono no ônibus. Mas eu não durmo. Tenho medo.

Depois de passar horas trabalhando, a fome chega. É hora de almoçar. Aqui no meu trabalho não tem cozinha, é preciso comer fora. O problema é que estão construindo um prédio enorme do lado da loja, e têm sempre muitos homens, seja na calçada ou pelas redondezas. E quase sempre sou assediada. Chega me dar até um embrulho no estômago. Sinto uma mistura de nojo com medo.

A manhã já passou. O almoço também. A tarde já está quase acabando. Daqui a pouco vou embora. Hoje marquei de ir com umas amigas num barzinho. Faz tempo que não faço isso!

Como saio às 19h do trabalho, e minhas amigas marcaram o encontro às 20h45 lá no bar, hoje irei de Uber para casa. Tenho pouco tempo para me trocar e sair.

Para adiantar, penso em me maquiar no carro do Uber. Até começo, mas eu paro logo em seguida, pois deu medo de o motorista achar que eu estivesse “pedindo” para ser abusada ou dando em cima dele.

Chego em casa às 19h45, tenho que correr. O meu marido também já chegou. Às crianças ele deixou na avó.

Toda empolgada, porque faz tempo que não saio sozinha ou faço algo diferente depois do trabalho que não seja chegar, limpar a casa, dar banho nas crianças e fazer o jantar, eu mando uma mensagem para uma das minhas amigas: Joana, acabei de chegar em casa. Vou me trocar e logo sairei. Estou muito feliz hoje!

A minha escolha para “a noite das meninas” é uma saia de cor clarinha, um marronzinho, uma blusa lisa branca e uma sandália na cor nude. Estava me sentindo linda! Finalmente, passei a minha maquiagem, arrumei os meus cabelos e passei um perfume. Quando saí do quarto, pronta para ir ao encontro, o meu marido me perguntou: ‘Aonde pensa que vai desse jeito? De saia? E ainda quase transparente? ’. Respondi: Vou sair um pouquinho com minhas amigas, vamos num barzinho, logo estou de volta. Ele falou: ‘Não vai mesmo. Vou te mostrar o que se faz com uma mulher que não se dá o respeito. Sua vagab…! ’.

Maria não foi ao passeio. Maria nunca mais brincou com seus filhos. Maria chorou, pediu misericórdia. Nada adiantou. Hoje chora na cama, sem poder andar.

De acordo com dados levantados pela Folha de S. Paulo, o feminicídio teve um avanço de 7,2% em 2019. Foram 1. 310 vítimas de violência doméstica ou por sua condição de gênero. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2018, ocorreram 66 mil estupros no Brasil. Na grande maioria, as vítimas eram do sexo feminino (81%,8), na qual (53,8%) tinham no máximo 13 anos e (75,9%) foram estupradas por um conhecido.

Por volta de 90% da população mundial tem algum tipo de preconceito contra as mulheres, sem distinção de sexo, revelou um estudo da ONU (Organização das Nações Unidas), na última quinta-feira (5). O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) analisou 75 países, ou seja, 80% da população global. O estudo também indicou que: 89,5% dos entrevistados brasileiros disseram ter ao menos um preconceito contra mulheres; das mulheres entrevistadas, 86,1% mostraram ter preconceito no que se refere a igualdade de gênero; 77,9% dos entrevistados brasileiros se mostraram preconceituosos em relação a violência doméstica e direitos reprodutivos; 50% da população entrevistada acredita que homens são melhores líderes políticos do que as mulheres; 40% dos entrevistados acham  que os homens são melhores diretores de empresas e 28% consideram justificado que um homem bata na sua esposa.

O Dia Internacional da Mulheres foi ontem, dia 8 de março, mas, na realidade, todo dia é dia da mulher.

É preciso por um basta em tanta violência.

E-mail: contatojornalconatus.com

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