Grito de socorro

População LGBT+ registra, em três anos, aumento de 284% em casos de suicídio, de acordo o levantamento do site Homofobia Mata

GRITO DE SOCORRO

População LGBT+ registra, em três anos, aumento de 284% em casos de suicídio, de acordo com o levantamento do site Homofobia Mata

Por SHEILA BAUM

Na manhã de um domingo de sol e algumas rajadas de vento, sentado sob a escadaria da Praça Franklin Roosevelt no Centro de São Paulo, vestindo uma bermuda, tênis e uma camiseta rosa – cores serenas que combinavam com o seu comportamento tranquilo e doce –, Eduardo da Silva relembrou muitos momentos ao lado do seu ex-companheiro Danilo Melhorini. Não foi fácil para ele. Há dois anos, Danilo entrou para a crescente estatística de suicídios na população LGBT+.

“A gente se conheceu num barzinho. Foi assim, eu passei, ele estava na calçada, olhei para ele – ele era muito bonito –. Trocamos olhares e nos cumprimentamos. Eu não esqueço nunca, ele estava com uma bermuda toda desfiada jeans delavê rasgadinha, camiseta regata na cor lilás com uma estampa de boca bem grande, na cor vermelha, no centro da regatta; e o cabelão comprido colocado de lado.”

A primeira vez que Eduardo o visitou em seu apartamento, Danilo estava de cueca branca, todo magrinho, com os cabelos soltos e com um sapato de salto enorme, na cor bege. “O Dan, que gostava de ser magro, vivia falando: ‘Sou magra, sou linda, sou rica!’ Ele era muito moderno. Ele fez moda. Também ganhou um troféu da Adriana Galisteu. E fez um vestido para aquela menina do Esquadrão da Moda, Isabela Fiorentino. Tinha feito vários cursos, até um de maquiagem”. Mesmo sendo preparado para a área, não conseguia oportunidade de trabalhar com o que mais gostava. “Um dia ele falou para mim: ‘Oh, Du, quando estava na Rebouças, em Alphaville, e falava que eu era da zona Leste, eles não me contratavam’. Isso fazia ele sofrer.”

Danilo era usuário de drogas mas, com a ajuda de seu companheiro, foi diminuindo o uso. Ele lidava com vários conflitos internos, a começar pela separação dos pais, quando tinha 17 anos. Alguns anos depois, em 2014, quando tinha 29 anos, perdeu a avó, o seu porto seguro. Ficou ainda mais arrasado. Começou a piorar. “Ele guardou para si, ele não colocou para fora, foi acumulando. Chorava muito. Ele era muito apegado em mim. Ele falava: ‘Filho – era como ele me chamava, ou de Tirilin – eu gosto tanto de você que se um dia você discutir comigo ou não me ver mais, eu me mato!’ Ele dava sinais, ele tinha tendência suicida. Tentou três vezes.”

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Eduardo da Silva, ex-companheiro de Danilo Melhorini, na praça Franklin Roosevelt. Foto: Sheila Baum.

Após procurar ajuda psicológica no Hospital Sírio Libanês, local em que trabalhava na época, como auxiliar administrativo, Danilo foi encaminhado para um psiquiatra no bairro do Tatuapé. Lá, depois de fazer uma série de exames, revelou-se uma tragédia! Deu que ele era portador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). “Agora ferrou tudo, o meu mundo caiu de vez”, disse Danilo na hora. “Ele não se conformava, ter que ir pegar o coquetel na Penha, de madrugada – pois só abre às 7h da manhã e era muito cheio –, era o inferno na terra para o Dan.” Os avisos de morte eram constantes.

O médico que o diagnosticou com AIDS havia dado 60 dias de licença do trabalho, e depois voltou atrás. Mudou a licença para apenas 15 dias. Para tentar um tratamento melhor, no dia 15 de março Danilo voltou ao Hospital Sírio Libanês. O atendimento ocorreu às 8h30. “Depois de um tempo de tratamento, um dia o médico pediu para eu entrar no consultório junto com o Melhorini, veio me perguntar, antes, como ele era, e eu falei. Então o médico disse: ‘Danilo, vamos voltar a trabalhar?’. O outro deu 60 dias a ele e deixou só 15, e agora você está mandando-o trabalhar? O médico continuou: ‘Sim, dia 20 você volta a trabalhar’. Quando eu olhei, ele estava de braços cruzados e com a cabeça baixa. Depois disso, saiu de lá mal, péssimo, péssimo. Quando chegou no metrô, ele sentou e colocou as duas mãos na cabeça. As lágrimas escorriam. Eu falei: ‘Vai dar tudo certo’, ele respondia: ‘Não vai dar nada, Du. Eu tenho que ir embora. Du, eu não queria, mas vou ter que fazer’.”

“Às 13 horas chegamos na casa dele, e eu falei assim: ‘Filho, tenho de ir lá em casa, mas volto, eu só vou dar um jeitinho na casa.”

“Eu ia dormir lá, mas não fui. Não voltei, não lembro o porquê. Quando foi no dia 16, quando eu acordei, às 6 horas da manhã – acordo com as galinhas, que peguei o meu cestinho de roupa, me deu um estralo: ‘Não. Eu vou no Danilo’. Quando eu chego (ele se escondia de mim, o apartamento dele era enorme. Eu falava assim: ‘Filho, filho’. Ele me dava um grande susto), aí eu falei: ‘Aí, Dan, onde você está que eu não te acho?’. Quando eu olho para o canto da sala, perto da rede…” 

“Meu companheirão que eu pensei que ia envelhecer comigo, me faz isso… Eu sofri! Até hoje…”

“O que eu passei, eu não desejo para ninguém”, desabafa Eduardo.

“Eu comecei a gritar, os vizinhos acharam estranho, porque eles nunca ouviram a gente brigando. Só rindo. Ele era tão filho da mãe que, quando eu chegava lá eu tocava o interfone e falava: ‘Chegou a Marilyn Monroe’ – ele morria de rir quando eu falava isso – ele botava a cabeça para fora e gritava ‘travestiiiii’, ‘a travesti da Mooca chegou’. Ele era muito brincalhão. Ele era daquele tipo que não se aceitava. A mãe dele não aceitava. O pai podia ver ele vestido de mulher, não estava nem aí. A avó o adorava. Ele não merecia tudo que passou.”

Levantamento do site Homofobia Mata apontou um crescente aumento de suicídios dessa população (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros, transexuais). Esse aumento foi revelado no levantamento feito nos últimos três anos, em parceria com o site Grupo Gay da Bahia (GGB), entidade que pesquisa violências praticadas contra a população LGBT+ no Brasil há 40 anos. Em 2016, foram 26 suicídios; em 2017 chegou a 58 casos, em 2018, o número de mortes voluntárias subiu para 100, um aumento de 284% em relação ao ano de 2016 a 2018. 

No ano de 2017, foram 33 gays, 15 lésbicas, sete transexuais e três bissexuais. Sendo que sete estavam entre a faixa etária de 14-19 anos; 13, entre 20- 29 e seis, de 30-36 anos. Ou seja, 45 % das 58 vítimas eram jovens.

Esse perfil se mantém em 2018. O levantamento apontou que os gays, em termos absolutos, são o segmento da população LGBT+ que mais se mata, com 60% de óbitos; seguidos por 31% lésbicas, 6% de trans e 3% de bissexuais. Aproximadamente 67% dos suicidas foram identificados como brancos, 27% pardos, 5% negros e 1% sem classificação. Sendo que 51% dos suicidas estavam entre os 19-30 anos, 27%, entre 31-40 anos; pouco mais de 5% acima de 50 anos; (os outros 17%, não foram classificados pelo levantamento do Homofobia Mata).

Na comunidade LGBT+, o suicídio aparece como segunda causa de morte, de acordo com o levantamento do ano de 2018, com 100 casos (23,8% do total de óbitos no ano). No período, a principal causa de morte foi o homicídio, com uso de armas de fogo, total de 124 vítimas (29,5%); armas brancas perfurocortantes, 99 (23,6%); e 97 mortes provocadas por agressões físicas (23,1%) como espancamento, asfixia, pauladas, apedrejamento, corpo carbonizado, entre outras.

“O número de suicídios vem aumentando não só no Brasil, mas no mundo inteiro. E na comunidade LGBT+ esse número vem aumentando demais”, afirma o advogado Eduardo Michels, militante da causa e de Direitos Humanos, principal responsável pelo relatório anual de mortes no Brasil e ex-pesquisador do Grupo Gay da Bahia, construtor da Hemeroteca Digital e do banco de dados “Quem a Homotransfobia Mata”.

As coletas das pesquisas são feitas através de obituários, de informações passadas através da mídia, por meio de familiares e por meio de redes sociais. Portanto, o total de casos, pode ser bem maior que os levantados. “Hoje em dia, com a rede social, se tornou mais fácil fazer esse tipo de pesquisa, esse levantamento biopsicossocial da vítima. Com isso, a gente consegue chegar na forma de opressão que aquela vítima sofria, consegue identificar ali um motivo, uma causa para o suicídio. E, muitas vezes, a própria vítima relata. Deixa até vídeos, cartas, mensagens gravadas”, conta o pesquisador.

Ouça abaixo a entrevista com Eduardo Michels:

“Acreditamos que questões psicológicas derivam unicamente do indivíduo. Então a gente tende apagar a relação entre o contexto social e o surgimento desses conflitos. E quando a gente fala de questões LGBT+, especificamente, é muito patente de que o sofrimento está ligado ao social, a questões socioeconômicas”, afirmou a psicóloga clínica Mariana de Camargo Penteado, hipnoterapeuta voluntária na Casa 1 (república de acolhida para pessoas LGBT+ que foram expulsas de casa por conta de suas orientações afetivas sexuais ou por sua identidade de gênero).

“Na Casa 1, com todas as pessoas que chegam pedindo amparo, é feita uma triagem. Fazemos uma análise de perfil das pessoas para ver se é possível ajudar e oferecer acolhida. A gente não tem dados, mas a impressão, subjetiva, das pessoas que fazem esse processo de triagem é que, do total de pessoas que chegam para nós, 90% delas já tiveram ideação suicida ou tentativas de suicídio. E quando a gente fala de 90% é um número assustador, foge da capacidade de compreensão. É preciso ficar preocupado”, complementa a psicóloga.

No âmbito nacional e diversificado entre os gêneros, o suicídio é a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, segundo recente pesquisa do Ministério da Saúde. E, de acordo com a revista científica americana Pediatrics, gays, lésbicas e bissexuais têm seis vezes mais chances de cometerem suicídio, em relação a heterossexuais, com risco 20% maior quando convivendo em ambientes hostis à sua orientação sexual ou identidade de gênero.

A prevenção ao suicídio está no foco do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que desde 2015 promovem a campanha de prevenção “Setembro Amarelo”. Em novembro do ano anterior, as duas instituições criaram uma cartilha para orientar médicos e profissionais da área de Saúde para identificar pensamentos suicidas e lidar com casos de tentativas de suicídio.

A cartilha “Suicídio: informando para prevenir” traz noções que têm como meta ajudar a sociedade quanto aos entornos do suicídio, desmitificando a cultura e estranhamento diante o assunto, como também auxiliar médicos a perceber indícios, tratar corretamente e instruir seus pacientes.

“As entidades médicas acreditam em uma sociedade engajada na defesa pela vida e em gestores comprometidos com políticas públicas que realmente transformem esse cenário. É possível prevenir o suicídio, desde que os profissionais de saúde, de todos os níveis de atenção, estejam aptos a reconhecer os seus fatores de risco”, registra a cartilha.

Homotransfobia no Brasil

No Brasil, a cada 20 horas é assassinado um LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). No ano de 2018 morreram 420 LGBT+, 76% por homicídio e 24% por suicídio. No total de mortes registradas, 45% são gays, 77% têm até 40 anos e 58% são brancos. Entre eles, predominam profissionais do setor terciário. Vinte e nove porcento foram mortos com armas de fogo, 49% na rua. Apenas 6% dos criminosos identificados.

De acordo com relatório do Homofobia Mata, houve uma pequena redução de 6% em relação a 2017, ano considerado recorde em número de vítimas por homofobia, quando foram registraram-se 445 mortes

Os estados que notificaram o maior número de homicídios e suicídios de LGBT+ em 2018 foram São Paulo (58 vítimas), Minas Gerais, (36), Bahia e Alagoas (35 cada) e o Rio de Janeiro (32). Na contramão, os estados menos violentos foram Amapá, com uma morte; Acre e Roraima, com duas cada.

Em todo território nacional, Alagoas é o estado mais perigoso para os LGBT+ : para cada um milhão de habitantes, 6,02 pessoas correm risco de morte, quando a média nacional é 2,01. Maceió, igualmente, lidera a lgbtfobia entre as capitais. A região menos violenta identificada foi a Sul (1,34), seguida pelo Sudeste (1,56).

Especialista no tema, o psicólogo social Marcos Vieira Garcia afirma que são várias as consequências do bullying, como é chamada a prática de violências explícitas ou simbólicas (aquelas que não se manifestam como agressão física, mas como desqualificação e xingamento). Uma dessas consequências é chamada de homofobia internalizada.

“A própria pessoa que sofre a discriminação acaba internalizando esse sentimento de menos valia, algo que a psicologia social já estuda há bastante tempo. O termo que a gente usa para isso é self-hatred, em português ódio de si”, diz o psicólogo social. “Além disso, homofobia internalizada afeta não só esse fato de se sentir menos amado, menos amada; menos apoiado, menos apoiada; mas como você começa a adquirir esse sentimento de subalternidade perante o mundo.”

UMA VOZ SOBREVIVENTE

Ele usava camisa polo verde, calça jeans clara, tênis e meias brancas. Seus brincos coloridos e seu cabelo raspado nas laterais chamavam atenção. Sentado sob o piso frio, numa galeria no Centro de São Paulo, ao meio-dia de 13 de abril, o jovem maquiador e apaixonado pelo mundo drag Henrique Roque de Araújo Silva (22) contou sobre um dos dias mais difíceis de sua vida.

“Tudo aconteceu no ano passado. Já era de madrugada. Eu e alguns amigos estávamos nos divertindo na casa de uma amiga muito próxima. Íamos para um rolê. Eram três horas da manhã quando recebi uma ligação da minha prima falando que a minha tia havia morrido de câncer. Tia essa que eu adorava. Ela sempre me apoiou. Eu já estava muito alterado por conta do álcool e das drogas, mesmo assim quis ir à balada. Nessa ligação, minha prima declarou que não poderia ir ao enterro da mãe, pois havia acabado de entrar em um novo emprego e não poderia se ausentar de forma alguma. Fiquei muito chateado. Isso acabou com o meu psicológico. Muitas coisas vieram na minha cabeça. Na mesma hora, mandei mensagem para o meu ex. A resposta foi que qualquer coisa, eu poderia falar com ele. Às dez horas da manhã, cheguei em casa, lavei o meu rosto e desmoronei. Estava exausto! Ao invés de ir ver minhas primas, como havia prometido, fui atrás do meu ex, infelizmente. Às 11 horas, eu peguei um metrô, em seguida um trem e depois um ônibus, para chegar em Cidade Tiradentes, em São Paulo. Eu estava chorando tanto no ônibus, já em Guaianases, que resolvi descer e pegar um Uber. Quando cheguei na casa do meu ex, fiquei apertando a campainha freneticamente. E como eu estava muito alterado, tive a impressão que ele estava em casa. Não sei o que aconteceu de fato. Para mim, ele estava, mas não abriu a porta. Fiquei à espera dele até às 17 horas. Fui ficando confuso e cada vez mais acelerado. Quando eu saí de lá, tinha a certeza de que eu iria me matar “, relata Henrique Roque. Naquele mesmo dia, 14 de maio de 2018, às 18 horas, já de volta ao Centro de São Paulo, ele tentou se matar.

 

 

Henrique de Araújo durante montagem de sua drag Charlotte Wixson, em pista de skate de Poá. Fotos: Sheila Baum.

"Quando eu coloco os brincos, eu estou mostrando muita coisa"

Nascido em Itaquera, Henrique mudou-se para vários lugares até chegar, com dez anos, na favela Hatsuta, que fica localizada entre as avenidas Monteiro Lobato e Presidente Tancredo Neves, no bairro São Roque, em Guarulhos (SP). A casa onde morava na favela estava entre as 45 residências destruídas por um incêndio às 20 horas de 18 de fevereiro de 2016. De lá, após a prefeitura desocupar a favela, Henrique e sua família mudaram-se para um apartamento no Lavras, um empreendimento do Minha Casa, Minha Vida, destinado a 1. 460 famílias de baixa renda que vivem em áreas de risco na Várzea do Tietê. Ficou na região até seus 18 anos: “Optei em partir. Minha mãe não me aceitava como gay, muito menos como drag. Fui para Poá, morar com a minha tia”.

Henrique já trabalhou como chapeiro fazendo lanches, já vendeu geladinho, também trabalhou como designer de loja de móveis estilo industrial, mas sua maior paixão é pela arte. Gosta de trabalhar com produção de moda, como maquiador e de se auto maquiar. Quando montado de drag, é conhecido como Charlotte Wixson.

O profissional de marketing Allan Gonçalves deu início à amizade com o Henrique há três anos. Ele que, na época, era um dos responsáveis pela festa, em São Paulo, Viewing Party de RuPaul’s Drag Race (extensão, em forma de evento, do talent show estadunidense RuPaul’s Drag Race, programa que procura o carisma, singularidade, coragem e talento de uma drag, idealizado e apresentado pela drag queen RuPaul, 58, que também é ator, cantor, modelo e autor). Festa essa que reunia, cerca de 100 fãs da série para assistir o programa que era passado no Dendrum Bar, todas as semanas. “A gente sempre trazia jovens talentos, drags do cenário nacional para se apresentarem dentro do espaço, e uma das drags que começou a carreira lá foi o Henrique. Ele era quem ficava nos bastidores, sempre ajudava todo mundo a ficar pronto, fazendo as maquiagens e, eventualmente, fazia algumas apresentações. E no mundo drag, assim como no círculo gay, tem muita dessa questão de você fazer famílias que não são as que você nasce. Nessa época, eu e meu ex-parceiro viramos a família dele”, conta Allan.

Henrique, por sua vez, tinha dificuldade em lidar com o fato de não poder se assumir como de fato era, principalmente na periferia. “Eu sempre fui muito forte em relação a sociedade, mas não vou negar que o preconceito não me mata aos poucos, principalmente vindo da minha própria família. Ao mesmo tempo, eu sei que não posso abaixar minha cabeça na rua quando eu estiver com meus brincos. Não é sobre mim. Quando eu coloco os brincos, eu estou mostrando muita coisa, e eles sabem disso”, diz Henrique.

“Na periferia, para eu dialogar com algumas pessoas, um meio social hétero, eu preciso adaptar a minha vestimenta. E, em alguns lugares, as coisas ainda são resolvidas no tiro, sabe? As coisas acontecem de forma tão pesada. Tudo é muito intenso! A vida daquelas pessoas está determinada àquele círculo, que acarreta diversas coisas”, ressalta.

Atualmente, ele mora em Poá, cidade que fica a 35 km da cidade de São Paulo, e segue fazendo, esporadicamente, apresentações como Charlotte.

Quanto à tentativa de suicídio, restaram apenas as cicatrizes e as lembranças “estava tudo um caos e a droga potencializou. São acúmulos de situações que a gente internaliza e guarda para si o tempo inteiro. São dias e dias. Se eu tivesse ficado ao lado da minha família, sem ter guardado rancor por ter sofrido preconceito, a situação poderia ter sido diferente”. Hoje, após muita fisioterapia e medicamentos, depois um ano do atentado contra a própria vida, o maquiador encontra-se com quase 100% do corpo recuperado.

Para a psicóloga Mariana de Camargo Penteado, a família é a base da socialização, na maior parte dos casos: “Se a gente for falar de pessoas em situação de vulnerabilidade, isso muda. Mas, no geral, o núcleo familiar é o que sustenta as relações que permitem a gente aprender como nos relacionarmos com o outro. Então, perder o apoio da família, causa um sofrimento muito intenso”

Ataques e impunidades

Crimes contra minorias sexuais geralmente são cometidos durante a noite, em lugares ermos ou dentro de casa, dificultando a identificação dos autores. Quando há testemunhas, poucas optam em ajudar prestando depoimento. Policiais, delegados e juízes manifestam sua homotransfobia ignorando tais crimes, muitas vezes negando sem justificativa plausível sua conotação homofóbica. No ano de 2018, somente em 8% desses homicídios o assassino foi identificado nas matérias jornalísticas, 25 num total de 320 mantinha contatos próximos com a vítima, seja como companheiro atual, ex-amante e parentes da vítima. Clientes, profissionais do sexo, michês e desconhecidos em sexo casual são os responsáveis pela grande maioria desses crimes de ódio, muitos caracterizados criminalmente como latrocínio, afirma o levantamento do Homofobia Mata.

O pesquisador Eduardo Michels, responsável pelo banco de dados que alimentou o Grupo Gay da Bahia (GGB) até 2018, conheceu o problema também na pele. Em 2017, ele e seu companheiro, ambos com 62 anos, foram agredidos e expulsos de casa por 20 adolescentes homens, seus vizinhos, no Centro do Rio de Janeiro. Só conseguiram voltar para casa, para pegar os pertences, depois de três meses, com ajuda de mandado judicial e força policial. “Um deles é do batalhão da polícia, ficava na frente da minha casa; e na delegacia, ele disse que era pastor evangélico. Inclusive quando nós saímos, umas mulheres falavam: ‘Deus vai te curar’, ‘Jesus vai te salvar’.”

“Quando eles me chutaram, me bateram – bateram muito na minha cabeça –; bateram muito no meu companheiro na região genital. Eles gritavam: ‘Aqui não é lugar de vocês’, ‘Você não vai mais precisar isso aqui (órgão sexual)’, ‘Aqui não é lugar para vocês ficarem, seus veados’. A sorte que tinham pessoas vendo. Umas mulheres negras gritaram: ‘Homofobia, homofobia, homofobia’; e eu estava no celular, e ele conseguiu gravar. Depois eu perdi o sentido. Mas esse vídeo foi usado de prova contra eles. E estamos até hoje lutando na justiça. Agora vamos ver no que vai dar essa decisão judicial. É lutar e lutar… Porque a gente não pode… Voltar para o armário, depois da velhice? Não pode. Tem que continuar”, desabafa o pesquisador. 

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Flavio Micelli, seu companheiro, e Eduardo Michels. Foto: Sheila Baum.

“Eles gritavam: ‘Aqui não é lugar de vocês’, ‘Você não vai mais precisar isso aqui (órgão sexual)’, ‘Aqui não é lugar para vocês ficarem, seus veados’.”

Eduardo Michels

Desde o dia 13 de junho desse ano, 2019, a homotransfobia está enquadrada dentro da Lei do Crime Racial (7716/89). Agora é considerada no Brasil como crime de discriminação ou preconceito por “raça, cor, etnia, religião e procedência nacional”.

“Há 70 anos, a ONU (Organização das Nações Unidas) declarou: ‘Direitos humanos são para todos, direitos fundamentais; direito a vida, direito a identidade’. Só que esses direitos não chegaram à população LGBT+, também não chegaram à população negra, pobre, favelada; também não chegaram às mulheres, que morrem todos os dias feito água, no Brasil, fruto dessa cultura machista. Agora vamos ver o que acontece com essa decisão, inédita no mundo, de considerar homofobia como crime de racismo. Eu não acredito nesse legislativo que está aí não, mas quem sabe seja o começo, né?”, comenta Michels.

No silêncio do coração

Albert Camus (1913-1960), filósofo, escritor e ensaísta, no livro O Mito de Sísifo, publicado em 1942, traz a história de um homem, o Sísifo, um personagem da mitologia grega condenado a rolar uma pedra montanha acima, pela eternidade. Em seguida, largar essa pedra e voltar. E reproduzir esse movimento indefinidamente. Um trabalho improdutivo e sem razão.

Esse esforço imenso para chegar à lugar nenhum é o homem contemporâneo. “A gente acorda, toma café, sai, toma o ônibus, o metrô, vai para o trabalho, trabalha, almoça, trabalha, volta para a condução, volta para casa, janta, dorme, acorda, e fica nesse ciclo. Se perceber preso nesse ciclo é a noção de absurdo, para Camus”, afirma João Gomes, bacharel e mestre em História Social.

O “absurdo” para Camus, segundo o historiador, “é justamente essa condição comum (eu poderia dizer, condição coletiva) da existência contemporânea. Tem a ver com esse modo de vida pós-industrial, muito urbano, de existências muito nucleadas, e que nos é comum até hoje. Esse processo, essa aceleração, sem que a gente perceba, nos tira o sentido da própria vida. E é essa tomada de consciência do absurdo da existência que pode produzir muita dor, muito desespero, muita tristeza, que pode levar ao suicídio.”

O filósofo acredita que não existem fatores sociais, políticos que envolvem essa pessoa e que podem levá-la, sob uma certa pressão, ao suicídio. “O que é importante para ele é que a sociedade tenha consciência do que irá contribuir para que o gesto decisivo aconteça, às vezes, é imperceptível, é um detalhe. Você sai de casa, anda pela rua, toma um café, dá um ‘oi’ para o seu cachorro, para o seu gato, e alguém te esbarra pela rua (e você já não está muito bem), às vezes, isso basta. Porque o seu estado de fragilidade é muito grande já. Você não sabe o que se passa dentro de cada um. ‘Isso se produz, vai se gestando dentro do ser humano, como uma grande obra, no silêncio do coração’ como Camus traz em seu livro. Algo individual que está dentro de cada um. Algo que poderia levar alguém a morte não leva o outro a morte, isso que é muito difícil de entender no suicídio, e que promove alguns julgamentos muito duros e muito injustos a respeito da pessoa que se suicida.”

Não há esperança na cena. O Sísifo é um homem sem esperança. Ele está instalado nesse momento de consciência, mesmo tendo sido condenado. As razões para continuar vivendo podem ser encontradas, justamente, no corpo, na carne dessa existência absurda; nas coisas, nas pessoas, naquilo que elas são, como são. “A mesma coisa que pode te deixar cansado, doente ou triste vai ser aquilo que vai te tirar dessa situação. Um gesto amigo, um raiar de sol depois de um dia nublado”, diz Gomes. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, finaliza Albert Camus.

A SAGA DE JORDHAN

Rio de Janeiro, Copacabana, 1967. “Nasci três anos após o início da ditadura. Tempos difíceis… Minha adolescência foi como uma lésbica muito masculina. E o que eu vivi era o retrato do que acontecia com a maioria de nós. Pois tudo que fugia à regra, naquela época, recebia tratamento desumano. Éramos vistos como “o erro”, algo que evidenciava as rupturas nas relações familiares e devia ser varrido, eliminado do convívio social. Por isso, a internação compulsória em manicômios era uma rotina, para que servisse de exemplo e desencorajasse outras pessoas a se assumirem como LGBT+”, conta Jordhan Lessa, guarda civil, palestrante e escritor.

“Sempre fui uma criança triste e sozinha. Meu pai era alcóolatra e muito violento com a minha mãe. A minha mãe vivia fazendo maldades comigo. Lembro-me de raros momentos felizes em família. Na pré-adolescência, eu era o saco de pancadas de uma família completamente desajustada, que não tinha tempo para mim e, muito menos, para tentar entender o que acontecia comigo.”

Jordhan, o mais velho de três filhos, cresceu e foi cuidado por uma empregada. A filha dessa empregada trabalhava na casa de sua avó, nas vizinhanças. No final do dia, as duas costumavam ir embora junto com o marido da empregada de sua avó. “Um dia, quando tomava banho, vi alguém me observando, em pé, se masturbando. Era aquele homem, o marido da empregada da casa da minha avó, que meus pais confiavam tanto por ser ‘crente’.”

“Em outra ocasião, quando acordei de um cochilo a tarde, abri os olhos e vi o mesmo homem, ele estava com sua genitália para fora, e apertando a minha mão naquilo.”

Os outros abusos ocorreram, no decorrer dos anos, dessa vez por meio do marido da empregada da sua casa, membro da elite da Assembleia de Deus: “Um dia ele me chamou no quarto dos fundos, fingiu que ia me ensinar sobre a Bíblia, passou a mão na minha perna e tentou me beijar”, relata Jordhan em seu livro Eu Trans: A Alça da Bolsa.

 Jordhan nunca teve apoio da mãe. Nem quando contou sobre os abusos que passou.

Com a chegada da adolescência, dúvidas surgiram. Naquela época, Jordhan se chamava Joseli.

Um dia, ao chegar em casa do colégio, que ficava na zona Sul do Rio de Janeiro, após uma discussão entre ele e a mãe, falou: “Eu fumei maconha e estou gostando de uma menina”. A reação da mãe na hora foi mandá-lo, aos gritos, para o quarto, e não sair até segunda ordem.

Jordhan Lessa, ativista e transfeminista. Foto: Sheila Baum.

Na manhã seguinte, acompanhado da mãe, foi ao psicólogo. O diagnóstico “homossexualismo”. Acabou internado. Fazia parte do processo, pois constava, nos anos 1980, no CID – Código Internacional de Doenças.

Jordhan foi internado numa clínica, em Botafogo, por uma semana. Lá viu de tudo. “Pessoas eram tratadas como animais, algumas até se comportavam como eles. Umas cuspiam no chão, batiam palmas, riam do nada e conversavam sozinhas. Tinham umas pessoas que dormiam molhadas de urina ou passavam o dia sujas de fezes, jogadas pelos cantos. O ambiente era sombrio e frio, parecia com um grande depósito de seres humanos abandonados”, descreve Jordhan.

Sete dias de internação bastou para que não conseguisse andar sozinho, nem comer e tomar banho sem ajuda de uma enfermeira. Devido às condições em que ficou, sua família o transferiu para outra clínica, localizada em Jacarepaguá, para fazer a desintoxicação.

Nessa segunda clínica, Jordhan conviveu com internos que gritavam como se estivessem sendo perseguidos. Alguns batiam nos postes para depois escutarem o som que saía dele. Com eles aprendeu a esconder os comprimidos que recebiam ou bebê-los com refrigerante, já que cortava um pouco o efeito do remédio.

“Passei por maus momentos, conheci o tratamento de choque, que até hoje me causa arrepios só de lembrar. Colocavam-me amarrado sobre uma maca, prendiam eletrodos na minha cabeça úmida e acionavam uma alavanca. A sensação era que jogavam pimenta dentro do meu cérebro, que escorria pelo corpo, o que causava dor e até o desmaio. Além de soltar a bexiga e, em alguns momentos, provocar a evacuação involuntária”, relata o escritor.

Quando saiu da clínica já não era mais o mesmo. Ficou tomado de mágoa. Foi para a casa da avó, por alguns dias, antes de ir morar com os pais novamente.

Bom tempo depois, Jordhan conheceu o seu grande amor. Era filha de uma outra empregada da casa. Relação secreta que, assim que a mãe descobriu, mandou a empregada e a filha embora. Jordhan também se foi. Mudou-se com sua amada, que morava em Bangu, bairro da zona Oeste do Rio.

Essa sua fuga não durou muito tempo. Sua mãe apareceu para buscá-lo com uma viatura da Polícia Militar. Foram todos para o Centro do Rio, para o Juizado de Menores, na avenida Presidente Vargas. Lá, ao falar com um assistente social, e responder inúmeras perguntas, foi levado para um subsolo. Por lá ficou horas. Até aparecer um kombi e levá-lo para o Educandário Santos Dumont, na Ilha do Governador. “Um dos fatos que mais me marcou, naquela época, foi um estupro com cabos de vassoura cometido por algumas menores contra outra menor que presenciei naquele lugar”. Dias difíceis de esquecer.

Do outro lado da rua

Não se sentindo bem na própria casa, já que os pais tinham se separado e viviam em conflito, Jordhan foi morar de aluguel na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. Na época, arrumou emprego no supermercado Casas da Banha. Depois de um tempo, as coisas mudaram. Jordhan perdeu o emprego, e foi morar na rua. Passou a dormir na marquise de um supermercado, que ficava na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, às vezes, nos bancos da Praça das Paraíbas e nas áreas da praia, quando não estava chovendo.

“Eles, os parentes, passavam por mim e fingiam não me conhecer. Minha mãe passava por mim, do outro lado da rua e me chamava de ‘sapatão’ bem alto, para que todos a ouvissem e me reconhecessem”, registra Jordhan em seu livro. Com o passar do tempo, foi morar na casa de um senhor chamado Bandeira. Lá, além de moradia, ganhou oportunidade de emprego.

Segundo Jordhan, uma das histórias contadas pela família sobre sua origem foi que seu avô teria tido um caso fora do casamento. Para evitar um escândalo da amante, o avô o levou para casa, mas não assumiu ser seu pai. Fez mais: convenceu a própria filha a criá-lo como se fosse dela. “Minha mãe, na verdade é minha irmã. ”

"Vou te mostrar como você vai deixar de ser sapatão"

Sábado à noite, 1983, Jordhan seguia para uma festa localizada no centro do bairro de Campo Grande. Ao sair de casa, resolveu parar num bar e comprar uma bebida. Pediu um samba, mistura de refrigerante com cachaça. Um homem resolveu lhe dar uma lição.

Jordhan não chegou ao seu destino. “Cheguei em casa com as roupas sujas, a cara horrível e uma sensação péssima. Fui tomar banho. Eu me esfregava como se toda a sujeira do mundo estivesse grudada no meu corpo, e ouvia dentro da minha cabeça uma única frase: ‘Vou te mostrar como você vai deixar de ser sapatão, depois de conhecer um homem de verdade como eu’. ” Naquela noite, aos 16 anos, engravidou. Teve o filho. Hoje, aos 52, é avô.

Um não lugar

“Eu usava camisas listradas largas. As roupas eram sempre escuras. Não jogava bola, não andava de bicicleta, também não ia à praia – coisa que eu adoro”. Somente em 2010, quando eu fazia parte de uma Igreja Evangélica inclusiva no Rio de Janeiro, uma amiga, uma mulher trans, chegou e falou para mim: ‘Jô, (meu apelido sempre foi Jô) você é trans’. Quando ela me disse isso, por questões religiosas, eu neguei. Porque, até então, eu já tinha desistido de qualquer rótulo, de qualquer caixinha. Eu me coloquei numa posição de sou eu”, diz Jordhan.

Somente em 2013, em Maricá, ao conhecer João W. Nery (primeiro homem transexual operado do país, falecido em outubro de 2018) que Jordhan compreendeu o que sua amiga trans havia falado. “Quando conheço o João, eu me reconheço nele e na história dele. É quando eu tenho a referência de ser um homem trans masculino, isso para mim foi representativo. Até então, eu era visto como uma lésbica masculina. Mas eu não me encaixava no lugar de lésbica nem no lugar masculino, então eu ficava num ‘não lugar’. Eu era, como diziam as meninas, macho demais! Que não tinha necessidade de ser assim. Mas eu não sabia ser diferente, porque eu sempre fui assim. ”

Foram dois anos pesquisando a respeito para só então tomar as minhas decisões de fazer cirurgia e de tomar hormonioterapia. Eu fiz a histerectomia total, a mamoplastia. “Eu nunca tinha ouvido a palavra “transexualidade”, eu já estava com 46 anos. ”

Entre 1995 e 1996, houve a tentativa de suicídio. “Não estava me sentindo muito bem. Era um daqueles dias que a gente olha para os lados e se vê completamente sozinho. Minha família tinha rompido de vez comigo. A gota d’água foi quando fui visitar a minha irmã, e ela me recebeu pela porta da cozinha, pois seu marido não queria me ver por lá. Nem da área de serviço eu saí. Quando voltei para casa, tentei o suicídio. Era noite, quando minha amiga chegou do trabalho e me encontrou desorientado, e me levou para o hospital Souza Aguiar”, relatou Jordhan. “Uma cena que marcou esse dia foi quando eu ouvi um médico falando para a equipe: ‘Não precisava ter pressa para atender, já que ele queria morrer, pressa não é necessária’.”

 Nas outras duas vezes que Jordhan tentou cometer suicídio, épocas anteriores a 1995 e 1996, foi o (CVV) Centro de Valorização da Vida quem o salvou.

“O Jordhan de hoje, é uma pessoa que, com as dores, aprendeu a ser melhor. Um homem de 52 anos que procura desconstruir o machismo e se coloca na luta transfeminista. Pois, de outra forma, seria negar tudo que o machismo e o patriarcado me fizeram sentir na pele. O Jordhan de hoje é um cara que está ressignificando toda a sua história, que busca plantar sementes para que no futuro outros homens trans não precisem passar pelo o mesmo que eu passei. ”

Pilar de proteção

Para Sara Laham Sonetti, psiquiatra associada à Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana (SBRASH) e à Associação Mundial de Profissionais de Saúde Trans (WPATH) “as próprias famílias de pessoas LGBT+ são, muitas vezes, um ponto de desamparo e estresse, deixando de ser um pilar de proteção e acolhimento como, teoricamente, deveria ser”.

O suicídio é uma das causas recorrentes das mortes de travestis, mulheres e homens transexuais do Brasil nos últimos tempos. Pode ser assinalado como um grave problema de saúde pública, todavia, entre a população trans ainda faltam dados, debates e pesquisas. No ano de 2016, foram reportados 12 casos de suicídios entre a população trans. Já em 2017, foram registradas sete mortes e em 2018, ocorreram oito casos de suicídios, de acordo com o levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA) apresentado através do Dossiê assassinatos e da violência contra travestis e transexuais no Brasil em 2018

O estudo realizado pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade de Minas Gerais revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato.

Um problema de saúde pública

O suicídio é uma das causas de morte voluntária de travestis, mulheres e homens transexuais do Brasil nos últimos tempos. Pode ser assinalado como um grave problema de saúde pública, todavia, entre a população trans ainda faltam dados, debates e pesquisas. No ano de 2016, foram reportados 12 casos de suicídios entre a população trans. Já em 2017, foram registradas sete mortes e em 2018, ocorreram oito casos de suicídios, de acordo com o levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA) apresentado através do Dossiê assassinatos e da violência contra travestis e transexuais no Brasil em 2018

 

O estudo realizado pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato.

 

Para o historiador George Minois, no livro História do suicídio: a sociedade ocidental face à morte voluntária, “Suicídio é um termo nascido no século XVII, na Inglaterra, mesmo que o termo suicídio seja apontado como utilizado, primeiramente, em língua francesa, em 1734, pelo abade Prévost. De forma que “na língua francesa só dispunha outrora de perífrases que adaptavam a ação de se matar, sinal do caráter excepcional e condenável da ação: ‘matar a si mesmo’, ‘ser homicida de si mesmo’, ‘ser assassino de si mesmo’, ‘sacrificar-se’.

 

Conforme David Émile Durkheim (1858-1917) sociólogo e filósofo, no livro O Suicídio lançado em 1897 “chama-se suicídio todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, realizado pela própria vítima e que ela sabia que produziria esse resultado. A tentativa é o ato assim definido, mas interrompido antes que dele resulte a morte.” Para Émile Durkheim há três tipos de suicidas:

 

 

Egoísta: o sujeito menos dependente do grupo social e mais de si próprio, e são os interesses pessoais que determinam as suas ações. O egoísmo “não é apenas um fato auxiliar dele, é a sua causa geradora. Se, nesse caso, o vínculo que liga o homem à vida se solta, é porque o próprio vínculo que o liga à sociedade se afrouxou”, diz Émile Durkheim (pág. 266). “Se desliga da vida porque, não percebendo nenhum objetivo ao qual se possa agarrar, sente-se inútil e sem razão de ser”, completa o sociólogo (pág. 281). 

 

 

Altruísta: quando ocorre o auto-sacrifício em prol dos outros, seja para salvá-los ou beneficiá-los. É consciente e intencional. Está ligado a esperança, já que pensasse que, além dessa vida, há de acontecer boas coisas. “O homem está sempre disposto a dar sua vida, em contrapartida ele já não faz caso da vida dos outros”, afirma Émile (pág. 302). 

 

 

Anômico: é aquele que ocorre em uma situação de desconsideração de controle social, criando espaço para o caos, gerando um descompasso de ordem na sociedade. “As crises industriais ou financeiras aumentam os suicídios, não é por empobrecerem, uma vez que crises de prosperidade têm o mesmo resultado; é por serem crises, ou seja, perturbações de ordem coletiva”, de acordo com Durkheim (pág. 311). 

 

 

UMA LUTA DIÁRIA

O seu nome é Dante Santos da Silva, mas já foi chamado de Ana Carolina Santos da Silva.

“Hoje, com 19 anos, eu finalmente descobri quem eu sou: ‘Dante, não-binário, pansexual, não-monogâmico, que tem Borderline, depressão e ansiedade’. Agora eu consigo tratar essas coisas da melhor forma, consigo ter uma vida social. Ter essa consciência me ajuda a viver melhor. É uma luta diária”, fala Dante.  

Ele mora com a sua mãe em Arujá, cidade que fica a 42 km de São Paulo. “Eu me considero uma pessoa muito sociável, apesar dos pesares; amigável e extrovertida. Como nem tudo é perfeito, eu tenho os meus defeitos: ‘Um pouco rude demais, um pouco ignorante demais, preguiçoso demais’. ”

Sua identificação como não-binário e pansexual aconteceu entre 2017 e 2018. Não monogâmico esse ano, 2019. “Para mim foi muito difícil me assumir não-binário, pois eu me enxergava como uma mulher cis que gostava de todo mundo, mas que não queria ser rotulada. Eu me sinto mais vivo. Se eu continuasse me vendo como mulher cis, bissexual ou lésbica com certeza eu estaria mais infeliz que em qualquer outro momento. E sobre a não-monogamia, as pessoas acabam encarando como se fosse bagunça. E não é”, afirma ele.

No momento, Dante namora um jovem. E, esse jovem namora outra pessoa. Além do namorado, Dante se relaciona com outras duas pessoas, de forma não tão séria. “Temos um grupo de conversa, na qual chamamos de rede poli amorosa. Todo mundo fica ciente de tudo. Nós somos felizes assim.”

Dante Santos da Silva, não-binário, pansexual, não-monogâmico. Foto: Sheila Baum.

Um misto de medo e de culpa

Em fevereiro de 2018, Dante deixou a casa da mãe em Arujá para morar com a pessoa que namorava, monogamicamente, no bairro Butantã, num dos quartos da moradia estudantil da Universidade de São Paulo (USP). “Eu estava nas minhas piores crises de depressão e ansiedade. Nem saía do quarto. Não conseguia arrumar trabalho, não conseguia voltar para os estudos”, conta Dante.

Em 22 de outubro de 2018, Dante criou o perfil Dante, respira, no Instagram. “Como eu não conseguia colocar para fora o que eu sentia, nem falar para o meu namorado, eu comecei a escrever tudo lá. Foi um pedido de socorro.

Depois que eu comecei a expor os meus sentimentos, a dizer o que se passava comigo, ele passou a entender que não era preguiça, que não era comodidade. Era decorrente dos meus sentimentos, das minhas vontades e dos pensamentos suicidas.”

Quando chegou novembro e dezembro foi que, realmente, as coisas começaram a ficar graves ao ponto de ele começar a se machucar com gilette. Na madrugada de 19 de dezembro de 2018, Dante tentou se matar: “Foi a primeira que eu fui até o final. Eu estava namorando há um ano e seis meses. Inclusive, no dia 18, foi a data de comemoração do nosso tempo juntos. A nossa relação foi se desgastando bastante. Nós estávamos morando juntos há sete meses. Estávamos brigando muito, a situação financeira estava muito ruim. Como eu não estava me tratando, as minhas crises maníacas foram aumentando, por conta da bipolaridade e crises de personalidade. Ele procurava uma segurança familiar em mim, por ser uma pessoa trans que não tinha o apoio em casa. Então, era conflito em relação à transição dele, era o meu conflito em relação aos meus sentimentos e transtornos. Na verdade, a gente podia ter se ajudado, mas nós não conseguíamos fazer isso. ”

Para o dia 18, estava combinado que eles iriam ao cinema para comemorar a data de namoro. Seria um compromisso inadiável, mas as coisas não ocorreram como o combinado. “Voltei meia-noite para casa. A volta para casa já havia sido estressante, pois alguns homens bêbados me provocaram no metrô.  Eu cheguei em casa muito cansado e falei para ele que só queria dormir, pois estava me sentindo muito mal por não ter conseguido passar o dia com ele. ”

Durante a noite, Dante teve uma crise muito difícil. Foi um misto de medo de ser abandonado, por não ter passado a data com o namorado. “Foi um misto de culpa, por ter feito ele passar por tantos problemas ao meu lado nos sete meses em que moramos juntos. Misto de ‘estou com raiva de mim’ por não estar conseguindo melhorar. Por eu ter saído de casa, já que minha mãe aceitou de volta em casa o homem com que ela se relacionava (e se relaciona até hoje). Mas, o principal motivo daquele dia, foi a culpa. ”

“Fiz o que tinha em mente, tentei o suicídio”, diz Dante.

 No dia 20, os dois passaram o dia inteiro conversando sobre o que havia acontecido na madrugada e sobre como ficaria a relação após a tentativa de suicídio. “Eu dizia para ele o tempo todo que não conseguiria viver sem ele e que não conseguiria voltar para casa. Chorei o dia inteiro. “

“No dia 21, ele acabou contando tudo o que havia acontecido para a minha mãe. Ela ficou desesperada. Disse para voltar para casa, mas só fui no dia 25”. Desde o dia em que voltou para a casa da mãe, em Arujá, até o final do mesmo mês, foram dias muito difíceis. “Eu continuava me machucando. Chorava quase todos os dias. Nessa casa, ainda morava o marido da minha mãe: ‘Eu não gosto da palavra padrasto’. ”

Dante parou de postar no perfil Dante, respira em março desse ano, após mais uma tentativa de suicídio. “Tentativa essa que me deixou muito próximo da morte, diferentemente das outras. Meus sentimentos pelo meu ex-namorado que me fizeram tentar o suicídio. Eu era obsessivo-compulsivo por ele. ”

“Eu já tinha começado a terapia psicológica e psiquiátrica, já estava tomando remédio. Eu e o meu ex mantínhamos um certo contato, mas nada além de: ‘Oi, como você está? Como está o seu dia? ’. Mas, na época, em janeiro desse ano, ele já estava se envolvendo com outra pessoa. Essa pessoa tinha o físico e a personalidade iguais a mim. Na minha cabeça (paranoia minha), ele se envolveu com essa pessoa para me fazer ciúmes. E não era nada disso. Tive muito ciúmes”.

 Por conta desse pensamento, Dante teve surtos obsessivos e maníacos. “Naquele dia eu surtei. Um surto de ‘Você ainda é meu e você não pode, não deve, não tem o direito de usar os meus sentimentos com outra pessoa’. Com isso, eu mandei um texto enorme para ele falando: ‘Como você não gosta de mim ainda? Como você não me ama? Como é que pode, se eu cuido de você até hoje? Eu peço Uber quando você está bêbado, aviso seus amigos para abrirem a porta’. Aí foi quando eu ouvi as palavras mais duras da minha vida em relação a ele: ‘Você me colocou num relacionamento abusivo, você me causou muito mais ansiedade que eu já tinha conseguido recuperar, você me faz muito mais infeliz, eu não te amo mais, eu tenho ódio de você. Eu não consigo entender como é que você acha que eu ainda gosto de você’. ”

“Voltou todo o sentimento do dia 19 de dezembro: ‘Eu tenho culpa por ele estar assim, por ele estar infeliz, ele tem raiva de mim, ou seja, eu nunca vou ter ele de volta, eu tenho culpa disso tudo que está acontecendo’. Eu entrei em prantos. Comecei a chorar. Foi ai que, dia 31 de janeiro, às 20h30, eu tentei o suicídio novamente. ”

As 21 horas ele foi levado a um hospital em Mogi das Cruzes, ficou internado até as oito horas da manhã. Foi tratado e liberado. “Quando eu voltei para casa eu dormi o dia inteiro. Quando eu acordei, eu mandei uma mensagem para o meu ex dizendo que eu estava bem, e pedi desculpas. Ele me respondeu: ‘Ok, se cuida’. Depois disso, ele me bloqueou.  Até então, nós nos falamos só mais uma vez. ”

Obcecado por mim

“Eu tenho certeza, tenho picos de depressão desde os meus cinco anos. Pois nessa época, a minha mãe me abandonou a primeira vez. Ela me deixou com a minha família na Bahia. O segundo abandono foi quando ela ficou do lado do marido dela depois que eu contei que ele me abusava”.

 Dante foi abusado pelo marido da mãe dos 11 aos 14 anos. “Eu sofri muito com isso. Eu fui sozinho buscar ajuda na delegacia e ajuda psicológica.”

 “O marido da minha mãe era obcecado por mim. Eu não podia usar a roupa que eu queria, eu não podia sair de casa sem a permissão dele.”

Dante conseguiu uma medida protetiva na Justiça que exige do marido de sua mãe manter uma distância de pelo menos 100 metros dele. Como Dante voltou a morar com a mãe, o companheiro dela passou a morar em casa separada, mas eles não interromperam o relacionamento, começado em 2009.

“Se for comparar a pessoa que eu era em janeiro com a de hoje, eu sou uma pessoa completamente diferente. Eu sou saudável. Eu me cuido, me ponho em primeiro lugar. A principal coisa que me fez melhorar foi pensar que: ‘Se eu quero fazer faculdade, se quero ser jornalista, ser fotógrafo, se quero viajar, poder fazer coisas que eu não fazia antes, por não ter incentivo e saúde metal, eu preciso melhorar’. Eu comecei a fazer fotografia, judô e box. Comecei a viver”, diz Dante.

De acordo com o psicanalista Vinícius, “a gente tende, quanto sociedade, minimizar o sofrimento do outro. A pessoa está sofrendo, não quer sair de casa. Ela pode estar num quadro depressivo, e achamos que é ‘mimimi’, que está fazendo cena. Não se pode achar que esse ‘chamar atenção’ é algo teatral. É um pedido de ajuda.”

“A nossa sociedade Ocidental trata a morte com um distanciamento. Ou seja, há uma ausência de conhecimento e a existência de pré-conceito. E, quando esses dois fatores se encontram dentro da comunidade LGBT+ somado com o suicídio, são dois preconceitos que se reforçam. Conhecer é se aproximar”, aponta Hátila de Castro Estevam psicólogo especializado no segmento LGBT+.

Foco nas lésbicas

O Dossiê Lesbocídio no Brasil de 2014 a 2017 afirma que os números de registros de casos de lésbicas que se suicidaram no Brasil cresceram nos últimos anos. No ano de 2017 foi encontrado o maior número de casos desde 2014 (ano de início do projeto). Foram registrados 19 casos. Do número total de suicídios, seis deles ocorreram no estado de São Paulo, o estado com o maior número de ocorrências desse tipo no Brasil. A região Sudeste é a que concentra o maior número de suicídios, com 28% de todos os casos registrados em 2017. 


“Assim como nos casos de assassinatos, as regiões interioranas continuam sendo as que mais registram suicídios de lésbicas, concentrando mais do que o dobro dos casos registrados nas capitais brasileiras. Os registros dos casos de suicídio entre lésbicas ocorreram, em sua maioria, com lésbicas na faixa de idade entre 20 e 24 anos, seguida de perto pela faixa de até 19 anos. Essas duas faixas juntas concentram 69% dos registros dos suicídios de lésbicas no Brasil.  Diferente dos casos de assassinato de lésbicas, há uma incidência maior de registros de suicídio entre lésbicas feminilizadas, concentrando 73% do total dos suicídios estudados e ocorre em maior quantidade, também, entre lésbicas brancas”, indica o dossiê.

  

Conforme Fred Lúcio, antropólogo e decente da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), “a mulher que resolver ter um comportamento sexual diferente do padrão que é estabelecido para ela, ainda que esse comportamento seja direcionado para uma heterossexualidade, ela também é vítima de perseguição e até de morte.”

“Em 29 de agosto é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A data faz referência à realização do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale) realizado no Rio de Janeiro, em 1996”, de acordo como site O Globo.

“Os outros também podem ser o paraíso”

“A virtude é a própria potência humana, que é definida exclusivamente pela essência do homem, que é definida exclusivamente pelo esforço pelo qual o homem se esforça por perseverar em seu ser. Logo, quanto mais cada um se esforça por conservar o seu ser, e é capaz disso, tanto mais é dotado de virtude e, consequentemente, à medida que alguém se descuida de conservar o seu ser, é impotente”, diz o filósofo Baruch de Espinosa (1632- 1677) em seu livro Ética (pág. 289, preposição 20).

Para Thiago Prada, escritor, especializado em Filosofia Contemporânea e estudioso de Espinosa, o conceito de conatus significa a força que cada ser faz para perseverar na sua existência. Todos os seres possuem internamente uma potência (energia) que é, exatamente, a sua própria existência. É essa energia que é afetada mediante os encontros que temos com outros seres.

“Para alguns pensadores e filósofos, estoicos e epicuristas, o suicídio era uma forma de liberdade. Dada as condições de determinada pessoa, em que ela estivesse incapaz de permanecer virtuosa na sua existência, e continuar utilizando sua razão para alcançar essa virtude, ela poderia dar um fim a própria vida. Em Spinoza, especificamente, eu não diria que se trata de uma liberdade porque, para Spinoza, todo o ato que é contra o próprio sujeito é contra o próprio ser, ele já tem um “quê” de tristeza”, fala Thiago.

Clique aqui para acompanhar os diferentes olhares sobre o suicídio desde a Idade Média.

“A cada encontro, a minha potência de agir diminui ou aumenta. Um exemplo muito simples sobre a questão do conatus pode ser que uma determinada música, uma comida ou pessoa cause um sentimento de alegria. E o que é a alegria? É o aumento do nosso conatus. A nossa potência aumenta. E ao contrário, quando somos afetados de tristeza, por alguma coisa que diminua a nossa potência do nosso ser, nós nos tornamos mais impotentes. Então a minha potência de existir vai diminuindo até o grau zero (até a morte)”, diz o estudioso.

De acordo o escritor, “as pessoas terão que buscar esses encontros alegradores, essas maneiras, entre si, de poder resistir a todos esses ataques homofóbicos pela arte, através da fotografia, pela união, por ações sociais, talvez pela política. O cuidado de si depende não só de você, mas do outro. Como Sartre vai dizer: “o inferno são os outros”; para Spinoza, “os outros também podem ser o paraíso. ”

Segundo o site Brasil de Fato,"a população LGBT+ no Brasil é estimada em 20 milhões de pessoas". Foto: Sheila Baum.

 

“As pessoas precisam entender que pedir ajuda não é feio, que falar sobre tristezas é comum. São lugares que precisam ser abertos, para que as pessoas possam ter a esperança de algo melhor que a morte. Existe o Centro de Valorização da Vida (CVV), na qual pode-se conversar com um voluntário, (188)”, finaliza o psicólogo Hátila. O atendimento no CVV é gratuito e funciona 24 horas.

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