FISGADOS

O número de toques diários no celular são 2.600 e por ano, em média, são quase um milhão de toques, segundo a empresa de pesquisa Dscout Research​.

FISGADOS

O número de toques diários no celular são 2.600 e por ano, em média, são quase um milhão de toques, segundo a empresa de pesquisa Dscout Research

Uma pesquisa do Hospital Samaritano de São Paulo mostrou que oito em cada dez motoristas usam celular enquanto dirigem, sendo que 93% deles reconheceram que isso é perigoso. Foto: Sheila Baum.

Por Sheila Baum

Os que nasceram antes dos anos 2000 têm recordação do que é dormir imaginando qual será a primeira brincadeira do dia. Empinar pipa, jogar bola na rua, subir em árvores, brincar de casinha, jogar amarelinha, não faltava criatividade. Ah! E o cabo de guerra!

Correr até as pernas doerem, cair de bicicleta, pisar em espinhos por andar sem calçados, nada era problema. Bem pelo contrário. Diziam que era saudável. Havia até quem comece terra, pois diziam que “fazia crescer”. Uma infância bem divertida.

O legal era brincar na rua. Acordar, comer algo – se desse tempo – e sair correndo para a casa do vizinho. Era só chamar a criançada do bairro e definir a primeira aventura. Passava a manhã, chegava à tarde e ia até ao anoitecer.

Tempos esses, que os pais pediam para os seus filhos entrarem em casa, pois já tinham “corrido rua” por muito tempo. Quem nunca ouviu: “Não para um segundo em casa!”?

Hoje é ao contrário. Os pais imploram para que suas crianças saiam. Para que deixem de lado o vídeo game, a televisão, o computador, o smartphone. A rua e às atividades mais corriqueiras já não são mais a sensação do momento, seja das crianças, dos jovens ou para os mais vividos. A atenção agora fica para os eletrônicos, principalmente para o smartphone.

Quem diria que um simples aparelho lançado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1973, pesando quase um quilo e medindo 25 centímetros, e no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, em 30 de dezembro de 1990, ganharia tanta força, e que fosse capaz de mudar a rotina de tantas pessoas.

Hoje, no País, há dois aparelhos digitais por habitante, englobando smartphones, computadores e tablets. A estimativa é que 2019 feche o ano com 420 milhões de aparelhos ativos, de acordo com a 30ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).

Segundo o levantamento, são 230 milhões de smartphones ativos no País. Houve um aumento de 10 milhões no número de smartphones, em relação a 2018.

Quatro bilhões de pessoas no mundo têm um aparelho celular, de acordo a apuração feita pela empresa sueca Ericsson. E, segundo a empresa de pesquisa Dscout Research, o número de toques diários no celular são 2.600 e por ano, em média, são quase 1 milhão de toques. 

Até a “queridinha” de todos, a televisão, percebeu espaço. Só hoje, dia 9 de dezembro, até às 9 horas da manhã (momento da publicação), foram mais de 2.320.000 (dois milhões, trezentos e vinte mil) de smartphones vendidos do mundo, enquanto aparelhos de televisão foram somente 250.000 (duzentos e cinquenta mil). Há uma diferença de dez vezes, quando se fala em procura por smartphones. É o que indica o Worldometers, site administrado por desenvolvedores, pesquisadores e voluntários na qual disponibiliza estatísticas mundiais em tempo real. 

"O uso do smartphone em excesso pode, ao abaixar a cabeça quase 60 graus de flexão, gerar dor, contraturas ou até mesmo uma hérnia", afirma o fisioterapeuta Italo Ribeiro Monteiro. Foto: Sheila Baum.

Sequestro da atenção

A motivação para esses inúmeros cliques não está somente na procura de conexão com outras pessoas. Essa atenção extrema para com os smartphones, vem sendo criada, sem que haja a percepção dos usuários. Existe um esforço enorme e totalmente consciente dos profissionais da tecnologia para nos manipular. Está havendo um sequestro de atenção e o surgimento do vício.

Esse vício, essa ânsia por estar conectado 24 horas por dia, seja no trabalho, na faculdade, na escola ou mesmo em um jantar com a família, não é à toa. Quando você entra no seu Facebook, não dá umas passadas de dedos para cima procurando atualizar a sua página para ver assuntos novos? Então, esse movimento se chama “rolagem infinita”. A rolagem infinita foi criada em 2006 pelo Aza Raskin, que é formado em matemática, música abstratas, design e empreendedorismo, além de ser um dos fundadores do Center for Humane Technology (centro por uma tecnologia humana).

Porém, de acordo com uma entrevista dada à Popular Science (PopSci)revista americana que trata de assuntos voltados para a ciência e tecnologia, Aza se mostrou arrependido de sua própria criação. “O que eu pensei que era uma boa experiência do usuário – você sabe, no sentido de que, toda vez que você pede a um usuário que tome uma decisão com a qual não se importa, você falha como designer – na realidade, isso desperdiçou literalmente centenas de milhões de horas humanas”, afirmou.

“É como se mesmo sabendo que não há necessidade de olhar o celular a gente ficasse sentindo que está perdendo alguma coisa”, conta o maquiador Rafael dos Santos Valentini, que se considerada viciado em tecnologia e afirma sentir abstinência quando não consegue acessar o mundo digital.

Assim como Rafael, a empresária e atriz, Juliana Seffrin Filippio, também afirma ser viciada. “Passo de duas a três horas por dia nas redes sociais. As vezes mais. Quando acordo, a primeira coisa que faço é pegar o celular. Ele quase sempre está comigo, quando vou ao banheiro ou para a cozinha.”

Para o americano Tristan Harris, ex-funcionário do departamento de Ética do Design do Google e, também, cofundador do Center for Humane Technology, os aplicativos são desenvolvidos para ‘seduzirem’ nossos olhos e ganharem nossa atenção o maior tempo possível.

“Desde a década de 1980, os cientistas sabem que o neurotransmissor dopamina é uma espécie de recompensa química por agir, incentivando-nos a antecipar recompensas. Recentemente, especialistas começaram a argumentar que atividades sem substâncias, como jogos e mídias sociais, também podem criar ciclos de recompensa e dependência. Cada vez mais parece que tudo, desde as cores do Candy Crush até o aumento da confiança de um novo “curtir” no Facebook, está remodelando sutilmente nosso cérebro”, informou a PopSci em seu artigo.

Não é por acaso que de 2 mil brasileiros, 30% das pessoas disseram que têm problemas com insônia e de concentração, por conta do excesso de uso do celular, e 32% já tentaram maneirar, sem conseguir, é que indica o levantamento feito pela consultoria Deloitte.

Desconectados com a saúde

Todos sabemos que o smartphone é um grande “quebra-galho”. Com ele nos mantemos informados sobre as notícias do dia, pedimos comida, nos localizamos onde quer que estejamos, fazemos ligações, interagimos através de redes sociais e por aí vai. Não é possível negar a sua praticidade. Porém, é preciso ficar atento com o excesso. De acordo com a We Are Social, agência especializada em mídia social, os internautas do mundo gastam, aproximadamente, 6 horas e 42 minutos on-line todos os dias.

Basta sair de casa para ir à padaria da esquina, por exemplo, em menos de poucos passos já presenciamos alguém atravessando a rua, comendo, andando de bicicleta, tudo com o smartphone na mão. Uma pesquisa do Hospital Samaritano de São Paulo mostrou que oito em cada dez motoristas usam celular enquanto dirigem, sendo que 93% deles reconheceram que isso é perigoso.

O psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica do Hospital das Clínicas (USP), em seu blog, diz que: “Pouquíssimos são os estudos que se debruçam sobre os efeitos específicos destes comportamentos na mente humana e, mais especificamente, sobre os desdobramentos do uso constante da tecnologia nos processos de pensamento e de raciocínio”. Porém, ele traz algumas consequências do uso em excesso do smartphone: mudanças no cérebro, distração digital e atenção fracionada.

“Meninas, em fase de adolescência, que utilizam as redes sociais por mais tempo, são as mais propensas a desenvolver depressão, baixa autoestima e outros problemas de saúde mental, se comparadas àquelas que estão longe das telas”, diz estudo do Grupo de Dependência.

“O uso do smartphone em excesso pode, ao abaixar a cabeça quase 60 graus de flexão, gerar dor, contraturas ou até mesmo uma hérnia. Além disso, os braços também são afetados. Podem ocorrer câimbra, contrações involuntárias devido a fadiga muscular e circulatória”, afirma o fisioterapeuta Italo Ribeiro Monteiro.

Uma pesquisa do Center for Humane Tecnology com 200 mil usuários indicou que quando a pessoa passa muito tempo utilizando um aplicativo ela passa mal. Por exemplo, após usar o Facebook por 22 minutos, a pessoa começa a ter sentimentos negativos, fica cada vez mais triste.

Esquivando-se do anzol

Os magnatas da tecnologia, certamente, não irão desacelerar esse processo de captação de atenção, já que há muitas coisas envolvidas. Esse é um game sem fim, na qual quem dita as regras são eles. O que podemos fazer é tomarmos consciência da quantidade de tempo em que passamos conectados, tomar consciência do que estamos consumindo. E o principal, é preciso procurar ajuda de algum profissional da saúde, caso sinta que a situação está fora de controle.

Para saber se possui vício em tecnologia e para conseguir um tratamento, clique aqui.  (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP).

O professor de hipnose e hipnoterapeuta Charles Bueno diz que o tratamento para o vício em tecnologia segue protocolo de atendimento como de qualquer outro vício. É feita uma avaliação para identificar as cargas emocionais envolvidas, os hábitos do paciente e qual o nível de dependência. “A maior causa do desenvolvimento desse vício são as cargas emocionais. É como se a pessoa viciada procurasse alguma válvula de escape, através do uso do smartphone, por exemplo, para sanar essas emoções”, completa Charles.

É possível controlar o tempo em que se passa no smartphone, e existem aplicativos para isso (nesse caso, usando a tecnologia a seu favor).

Dois deles, na qual nós recomendamos, já que fizemos o teste e são gratuitos, são: o Quality Time e o Action Dash (para Android). Ambos passam uma relação completa de toda a sua movimentação do smartphone, seja diária ou semanal: horas e minutos, horários em que mais acessa e notificações de cada App.

Ficar sem acessar o smartphone o tempo todo, não te fará ser um peixe que vive em um aquário. Te ajudará se sentir mais saudável para fugir dos anzóis. Cuidado, sua atenção está sendo pescada!

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