Com quantas vantagens se faz um ser humano

Com quantas vantagens se faz um ser humano

"O importante é levar vantagem em tudo. Certo?" Gerson. Foto: Su Stathopoulos.
SHEILA BAUM 
16 MAR 2020

A corda bamba que equilibra o povo brasileiro do Norte ao Sul do Leste ao Oeste, que é o seu modo de ser e até de agir, regida pelos comandos que vêm do peito, que hora balança para o bem, hora balança para o mal. Que povo é esse que leva fama de “cordial”, que age mais com o coração do que pela razão, mas que no caos, muitas vezes, esquece o significado do que é ser “civilizado”? Que povo é esse que, de costume, de herança colonizadora, encurta distâncias e se fazer íntimo do próximo, seja qual for a sua intenção? Um povo generoso… Um povo triste…

O jornalista, sociólogo e historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), em seu livro Raízes do Brasil – lançado a primeira vez em 1936 –, trouxe o que seria o termo “homem cordial”. “É a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções. ”

Esse homem cordial é fácil compreendido, e fixo na memória de cada brasileiro, através do termo: “jeitinho brasileiro”. Não é raro ver cenas de alguém querendo ganhar “vantagem” sobre algo: os espertinhos do acostamento, os ligeirinhos do crachá, que guardam lugar na mesa do restaurante, os sabichões que vão ao mercado e às farmácias e compram todo estoque de comida e mantimentos de higiene e saúde, num momento de caos. Tudo sem pensar no próximo!

Não há um canto no mundo em que as pessoas não falem que os brasileiros são pessoas alegres e hospitaleiras – existe esse reconhecimento. Porém, o que Sérgio Buarque traz é exatamente que, apesar de ter esses “atributos”, o povo brasileiro não seria conhecido por ser educado. Ou seja, essa “bondade” seria uma máscara, um disfarce de um povo incapaz de agir para algo que vá além do seu círculo de interesses: família e protegidos. E o próprio umbigo.

Para Pedro Meira Monteiro, professor de literatura brasileira em Princeton, em entrevista para a revista Cult: “O homem cordial, no plano macro, é o coronel, o político corrupto, o dono de empresa pronto a corromper quem quer que seja. No plano privado, é o marido violento, o sujeito moralista que é incapaz de pensar para além de um círculo estreito de valores, a pessoa que não paga impostos, o cidadão pronto a passar por cima do outro, e todos aqueles e todas aquelas que não toleram a diferença, porque só podem amar e compreender a sua própria imagem no espelho”.

“Como diria Sérgio Buarque, lembrando Nietzsche, o ‘seu isolamento é um cativeiro’, isto é, ao não conseguir pensar para além do seu círculo de interesses e de valores, o homem cordial é presa de suas próprias limitações, incapaz de perceber que o mundo vai além dos interesses de um grupo cerrado ou dos desejos de uma única pessoa ou de uma única classe”, completa Pedro Meira Monteiro.

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“O importante é levar vantagem em tudo, certo? ”

Conhece a lei de Gérson?

Essa lei surgiu após o meio-campista Gérson (79), tricampeão brasileiro em 1970, aparecer na propaganda de cigarro Vila Rica falando, em “carioques” e carregando os tons vocais dos os erres: “O importante é levar vantagem em tudo, certo? ”. Gérson nunca conseguiu se livrar do rótulo: patrocinador dos espertinhos.

O fato é que esse jeito de ser é muito bem aceito na sociedade, por muitos. Não só aceito como praticado. Depois dessa propaganda, o indivíduo egoísta, sacana e fora das leis ganhou um nome, ou melhor, se viu dentro de uma condição, a gersoniana. Pensar só em si e levar vantagem, seria mesmo a nossa raiz?

Num momento de pânico, de um caos generalizado, como nos comportaríamos? Somos capazes de pensarmos no próximo? Temos a noção de que não há a necessidade de querer tudo para si enquanto o outro pode ficar sem nada? Conhecemos o significado da palavra empatia? Sim! Né!?

E-mail: contatojornalconatus@gmail.com

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