CARNAVAL: os quatro dias em que somos todos iguais

CARNAVAL: os quatros dias em que somos todos iguais

Por Sheila Baum

10 FEV 2020

Estamos no barracão, área coberta em que são realizadas as alegorias: enfeites preparados para serem utilizados, seja nos carros ou nas mãos dos participantes do desfile, e fantasias. Muitas delas. – São meses e meses de trabalho. Vemos máscaras: umas pequenas outras grandes, algumas mais espalhafatosas, umas mais simples, mas todas com brilhos e acessórios – como brilham! Elas são feitas de papelão, pano, plástico, couro.

Nada se passa aos olhos sem que encante… Há representações de corpos femininos, que destacam a beleza e a graça das mulheres e todos os seus tons de pele. “O carnaval brasileiro exalta a beleza de sua gente e faz assim o elogio da cultura mestiça a que pertence”, diz a escritora e psicanalista Betty Milan, no livro “Brasil: os bastidores do carnaval”.

Como não enxergar… Estão por todos os lados… São eles que embalam o grupo de passistas, a ala, que dão ritmo ao desfile, que encantam os ouvidos dos que desfilam e da plateia com a batucada e que dão mais força as marchas – sempre tão alegres e com letras críticas e até irônicas: os instrumentos da bateria.

Ao olhar para a frente, sob uma mesa cheia de tecidos, lantejoulas, plumas, há um adufe, pandeiro de formato quadrado; uma cuíca, um adulfo e um agogô, tem três sinos e é de metal. A esquerda, mais adiante, próximo a uma roda de conversa entre alguns homens, cuidadosamente colocados em cima de umas madeiras, tem um tambor de tamanho médio; um caracaxá, que é um chocalho de forma cilíndrica; também há um cavaquinho e uma trombeta. Alguns poucos passos à frente, em um canto iluminado pelo sol do amanhecer, que por uma fresta entrou, no chão, expostos em cima de um pano, um pandeiro e um reco-reco.

Tudo é tão grandioso. Tão iluminado. Sim, por conta das cores vibrantes, pelas enormes representações humanas, da natureza, dos cosmos, por tudo que o ser humano pode criar. Mas, também, pelos olhares e sorrisos das pessoas que, com suas ideias, estudos e muito esforço físico e dedicação fazem o carnaval acontecer, a cada ano. Mulheres e homens, todos trabalhando juntos.

“Cada um tem uma tarefa e no conjunto todo mundo dá um toque. Aqui, é o seguinte, o que tocar para um, toca para todo mundo, quer dizer, têm uns por amor, outros por mais amor ainda. Não tem salário, tem ajuda de custo. […] Mesmo que você não queira, você entrou, dali a pouco o micróbio vai subindo, quando você vê já era, aí já está, então não há dinheiro, há amor… Se botar no lápis ainda estão pagando para trabalhar…”, respondeu Aristote Vieira, da Beija-Flor, em 1981, em entrevista para o livro “Brasil: os bastidores do carnaval”.

Brincar de Carnaval

O carnaval, a festa mais populares do Brasil, acontece desde 1641 no país, a partir de uma homenagem feita num domingo de Páscoa, na rua Direita, antigo nome da rua Primeiro de Março, pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides ao rei Dom João IV.

Uma das festas mais antigas do mundo, o carnaval, ou melhor, o brincar de carnaval, surgiu na Antiguidade, atravessou a Idade Média e chegou ao continente americano. Com ele trouxe formas de manifestações culturais, envolto de histórias, de alegorias, de mitos e símbolos, que, até hoje, vem resistindo ou se adaptando às mudanças da sociedade.

No início do século XVIII, no Rio de Janeiro e na Bahia, surgem as “músicas dos barbeiros”, pequenos grupos musicais compostos de escravos negros barbeiros. “Essas pequenas orquestras ambulantes tocavam flauta, cavaquinho, violas, rabeca, trompa, pistão, pandeiro, tamboril, e interpretavam, muito à sua maneira livre, fandangos, dobrados, quadrilhas, lundus e polcas num repertório bem diverso”, de acordo com o site Rota do Samba.

“Segundo estudiosos, essa seria a primeira verdadeira manifestação de uma música popular brasileira instrumental de entretenimento público”, acrescenta o site.

Mas antes do carnaval ser conhecido como é hoje, seja pelo nome ou forma de festejo, havia outro tipo de manifesto: o Entrudo.

Em 1723, trazido pelos portugueses das ilhas da Madeira dos Açores e do Cabo Verde, chega no Brasil, no Rio de Janeiro, o Entrudo (termo latino “introitos”, e tem como significado: início), que era uma brincadeira na qual as pessoas jogavam, umas nas outras: água, farinha, ovos, entre outras coisas.

Essa brincadeira, o Entrudo, acontecia em um período antes da Quaresma, tendo como significado a liberdade. Brincadeira que era realizada por pobres e ricos.

Porém, no ano de 1840, houve uma mudança no modo de se festejar. Ocorreu uma separação entre a população carioca, os brancos e ricos não quiseram mais fazer parte da festa popular de rua, e se fecharam entre salões nobres. Enquanto os mais humildes “se divertiam” – o Entrudo era bastante violento – pelas ruas com o que tivessem à mão, os brancos estavam em bailes usando máscaras, à moda veneziana.

Comissão de frente da Mangueira, escola campeã de 2019, no segundo dia de desfile na Marquês de Sapucaí – 05/03/2019 Emiliano Capozoli/VEJA.com

De acordo com a publicação feita pela Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), teria sido uma família de italianos que moravam no Rio de Janeiro a primeira a organizar esses bailes.

Nos dias de hoje, no Brasil, tradicionalmente, o carnaval é festejado no sábado, domingo, segunda e terça-feira antes dos quarenta dias que vão da quarta-feira de cinzas ao domingo de Páscoa.

Além das datas oficiais de comemoração do carnaval, há, em algumas regiões do país, outros tipos de festejos. As datas variam e seus nomes tomam formas diferentes.

Na Bahia, por exemplo, é comemorado também a Micareta, umcarnaval fora de época. O termo “micareta” vem da expressão francesa “micarême”, que significa: meio da Quaresma. – A partir desta festa, muitas outras foram surgindo nos Estados do Nordeste, e em meses diferentes do ano –.

Em Fortaleza, no mês de julho, acontece o Fortal; em João Pessoa, a Micaroa, ocorre em janeiro; em Natal, o Carnatal, e é em dezembro; em Caruaru, o Micarú, em agosto; em Maceío, o Carnaval Fest, no mês de dezembro e outros. Todos contam com Trios Elétricos.

Desfile da Mangueira no segundo dia de desfile na Marquês de Sapucaí – 05/03/2019 Emiliano Capozoli/VEJA.com

Para Ricardo Cordeiro, publicitário e organizador do bloco Perdendo a Linha: “O carnaval é uma festa pelo povo e para o povo, mas que pela apropriação da mídia e dos grandes investidores, a festa acabou se tornando um campeonato de futebol, quando se fala em sambódromos; ou um carnaval de cordão, em que só participa quem comprar um abadá”. Mas o publicitário acredita que, com o retorno do carnaval de rua, da festa gratuita e de fácil acesso, esse quadro mudou, para um bem geral do carnaval.

Ricardo, que sempre teve grande envolvimento com o carnaval, em 2013, num dia chuvoso de janeiro, sentando num buteco escutando marchinhas e festejando, juntamente com alguns outros foliões, resolveu criar um bloco de rua. “Naquele dia nasceu o bloco Perdendo a Linha. Era bem início da retomada dos blocos de rua. De lá para cá, o bloco cresceu muito. Os custos aumentaram”, conta Ricardo. “Hoje conseguimos colocá-lo nas ruas com muito suor, cerveja e apoiadores!”.

O bloco Perdendo a Linha começou, em 2013, com 500 pessoas. Neste ano, a expectativa dos organizadores é que, no dia 15 de fevereiro, 3.000 a 4.000 pessoas compareçam.

De acordo com a agente de modelos Patricia Gabriel o carnaval é um momento de diversão e de muita união, que independe de qualquer condição social. “Uma festa que permite uma pausa para todos nós brasileiros. É um momento de alegria”, fala a agente.

Por amar o carnaval, já que todo ano se produz com os mais diversos adereços, Patricia criou uma marca, a Flox.co, em outubro de 2019, na qual ela vende todos os tipos de acessórios para se usar no carnaval e até em outras ocasiões.

“A Flox surgiu porque, há alguns carnavais, eu e algumas amigas, criávamos looks e misturas de brilhos para nós mesmas curtimos os bloquinhos. E de tanto ouvir que as nossas produções eram bonitas e diferentes, resolvemos fazer acontecer”, conta Patricia.

Assim como a Patrícia, que sempre criou suas produções carnavalescas, Diego Rodrigues Moraes, relações públicas, também carrega esse gosto pelas criações. “Desde pequeno ficava fascinado com os desfiles de escola de samba. Aquelas cores e brilhos…”

Diego, que desde criança gosta de se fantasiar, a cada ano, a cada data que se comemora o carnaval, cria novos personagens: “Eu me dedico ao máximo nas minhas produções. Meu coração se enche de alegria quando eu recebo o carinho das pessoas nas ruas”, diz.

“Sagitariano que sou, sempre dou um jeito de soltar as minhas verdades, e a fantasia me permite fazer isso, sempre com uma boa dose de humor. Ano passado fiz uma fantasia que batizei de “Super Bill” (Super Bicha), com a recente posse do atual presidente, comprovadamente homofóbico. ‘Encarnei’ um personagem que seria o protetor dos gays desprotegidos. Esse ano teremos uma crítica socioambiental”, finaliza Diego.

Recortes do carnaval brasileiro

Em 1920, na cidade do Rio de Janeiro, o carnaval era celebrado de diferentes maneiras. “Nos dias da festa, grupos de pessoas fantasiadas saiam às ruas para brincar, dançar e cantar marchinhas nos chamados ‘blocos carnavalescos. A primeira composição desse tipo é ‘Ó Abre Alas’ de 1899, de autoria de Chiquinha Gonzaga (1847-1935)”, de acordo com o jornalista Oscar Pilagallo, no livro “Festas Populares – Uma celebração de sons e movimentos”.

Na mesma década, no Rio, foi criado o corso, uma prática da elite, que tinha como objetivo reproduzir as sofisticadas Batailles des Fleurs do Carnaval de Nice, na França. “A brincadeira consistia em desfilar sobre automóveis, ambos enfeitados. Como eram bens caros, o corso era uma prática da elite”, traz o jornalista. Os carros percorriam a avenida Central até a avenida Beira-Mar.

Tradicionalmente, durante os desfiles dos carros do corso, era comum que os foliões lançassem confetes e serpentinas uns nos outros quando passavam.

A partir de 1940 o corso perdeu popularidade. Um dos motivos foi o surgimento dos grandes bailes para as classes altas.

O livro indica que, até o ano de 1942, os últimos desfiles das escolas de samba ocorrem na praça Onze; depois disso, foram transferidas para a avenida Presidente Vargas e, em 1963, para a avenida Rio Branco. Só em 1984 ganharam um lugar específico para desfilarem: o Sambódromo.

“Carnaval é: festa, alegria, criatividade, competividade e amor pelo samba”, fala a quiropraxista Alcina da Silva Pinto.

Criada no bairro Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, todos os anos, quando era criança, Alcina da Silva Pinto acompanhava o desfilar da escola de samba do bairro que passava na rua da sua casa. “Continuo Camisa Verde e Branco. No momento ela está no grupo de acesso, mas não deixo a minha escola do coração”, afirma.

Adoradora do carnaval, Alcina já desfilou no Sambódromo inúmeras vezes. Só pela Camisa Verde e Branca foram mais de sete. Este ano ela desfilará mais uma vez, dessa vez, será para a Sociedade Rosas de Ouro. “São mais de 20 anos desfilando aqui em São Paulo, fora algumas idas para a Bahia. Gosto muito da energia de Salvador”.

“Só quem desfilou é que sabe a energia que é… É uma experiência única!”

 

Carnaval e antropofagia

No carnaval desejos ocultos ou reprimidos ganham oportunidade. Um homem, que durante o passar dos meses do ano varia sua vestimenta entre terno, sapatos socias, camisas e calça jeans, ao desfrutar dos momentos de alegria que o carnaval proporciona, sem qualquer julgamento da sociedade, pode querer se vestir de bailarina, de princesa, ou até usar roupas de banho; assim como as mulheres.

Momento em que a fantasia de cada um sai do imaginário e se torna realidade.

 “O carnavalizar é essa possibilidade de trocar de lugar, de você juntar. E sobre tudo, classicamente falando, que é a mistura dos corpos. Que é o que acontece no carnaval. Uma ligação quase que umbilical”, disse o antropólogo e escritor Roberto DaMatta, em entrevista para a TV PUC-Rio.

“A cultura do carnaval é a do brincar que tanto me permite ser criança quanto sonhar acordado. No reinado de Momo eu me entrego sem culpa, como na infância, às várias fantasias”, traz Milan.

 

 

  • “No Carnaval, a mortalha vira fantasia e a caveira vira alegoria para que se possa superar o medo da morte, que a cultura do brincar não chora e não teme, satiriza”, escreve Betty Milan.

“Só a antropofagia nos une”, disse Oswaldo de Andrade, em 1928, referindo-se ao interesse que temos pelo o que é do outro.

O carnaval brasileiro se abastece de diversos símbolos de outras culturas, e se recria de acordo com novas fantasias.

Nada é fixo. Nada é impossível. Nada tem sentido único. Muito menos o carnaval.

E-Mail: contatojornalconatus@gmail.com

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